Mostrando postagens com marcador De mim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador De mim. Mostrar todas as postagens

24 de set. de 2025

Em dois anos de pandemia

 


Eu me abandonei para cuidar dos outros.

Desisti de mim para viver outras vidas.

Me anulei para afagar egos.

Me resignei para ser aceita.

Me calei para evitar conflitos.

Parei de me defender porque me sentia errada.

Eu paralisei pelo medo.

Me ignorei porque achei que não era boa o bastante.

Acreditei em todos, menos em mim.

Me tornei invisível porque era seguro.

Permaneci no escuro por causa da dor.

Neguei o caos e vivi uma mentira sufocante.

Invalidei o que sentia porque não tinha direito.

Me rejeitei para não ser rejeitada.

Me afastei para não incomodar.

Me escondi para não enfrentar o luto.

Me sabotei porque não me sentia capaz.

Afastei as pessoas para que não vissem meu fracasso.

Afundei no lodo porque perdi todas as esperanças.

Me culpei para não me sentir tão vítima.

Eu fugi para não encarar o pânico.

Gritei por socorro, mas só tinha silêncio.

Parei de tentar para não correr o risco de errar.

 

Até que morri para recomeçar.


f.


9 de jan. de 2017

Há tempo de perder. Há tempo de superar

Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima
- Paulo Vanzolini



Eu entendo. Seu horizonte escureceu como um apagão repentino que rouba a rotina: as possibilidades de passar o tempo se tornam escassas e é preciso esperar a luz voltar.  Mas, ela está demorando dessa vez, não é? Suas esperanças estão desabando. Como um trator rolando por cima do seu coração, ele está sendo esmagado pelo breu, com um loop infinito. Suas convicções foram anuladas pela quebra de expectativa e está difícil sair do lugar sem o horror de cair em um vazio mais fundo e escuro do que o que você já se meteu. Eu entendo. Está penoso levantar da cama. Cada pensamento dói na proporção de mil decibéis. A agonia não quer sair do peito, nem vomitada. Você duvida da sua capacidade de sorrir, comer e até respirar. Os dias passam arrastados e desbotados. Eu sei, o corpo ainda está dormente. É duro acreditar de novo. É frustrante ter que rasgar a lista de sonhos que não servem mais para compor uma nova. A gente se apega ao que conquista, não é? Parece que as bilhões de outras escolhas se extinguem quando adotamos uma. A verdade é que a gente se acomoda. É conveniente lidar com o que já conhecemos. Temos medo de dar o próximo passo no escuro. Mas, é algo que, às vezes, precisa ser feito. Como você pretende achar o interruptor estagnada no mesmo lugar? Não precisa se culpar pelo que aconteceu, não acredite em tudo o que os outros dizem, ninguém sabe o que se passa aí dentro. Neste exato momento, nem você. E é esta a sua grande oportunidade de se encontrar de novo, ou pela primeira vez.

f. 

31 de jan. de 2015

Agradecer...


Chega uma hora na vida que você só agradece, porque chega uma hora na vida que você percebe que tudo o que acontece pra você é como a voz do universo lhe convidando a sair do lugar, arriscar mais, se libertar do medo e ir atrás dos seus sonhos, por mais distantes que pareçam. Você precisa não somente confiar em si mesmo, precisa dar o primeiro passo, pois você é capaz. E ainda que as coisas deem errado, apenas seja grato. No final das contas, "destruição também é mudança" e os caminhos são infinitos.
f.

24 de jan. de 2015

Birthday


Vim te desejar um dia florido, um dia cintilante, um dia com direito a fogos de artifício e hinos de aniversário. Um dia com inspiração para ser feliz apesar de, e com motivação para fazer do novo ano o melhor de todos até aqui. Que você tenha um dia cheio de amigos presentes e surpresas bacanas. Que seja o dia das exceções e das primeiras vezes, dos sorrisos largos e das alegrias simples. Que as cores sejam suficientes e as horas leves, para você seguir adiante com a alma calma e o coração aberto.

f.

30 de nov. de 2014

Você não merece um título

How come I end up where I started?
How come I end up where I went wrong?
-Radiohead


Você nunca vai saber que eu estou aqui meio solta, vagando como um balão que se desprendeu da mão de alguém quase sem querer. E nunca vai saber que, mesmo sem rumo, eu me encontro cada dia de um jeito novo e extraordinário. O mau humor já não procede nos registros e meu riso se abre ainda mais sonoro. Não, as vibrações já não oscilam entre qualquer número abaixo de zero e, do alto, enxergo com resignação o que antes via como um trágico carma. É que agora eu me assumo responsável pela minha própria vida, entende? E você nunca vai saber o quanto isso me custou. Não, você nunca vai saber quantas vezes aportei em outros corações e o quanto estou mais interessada em me fazer feliz. Que reclamo menos e agradeço mais. Que mudei os planos, o perfume e de emprego. Que encaro os danos. Que faço trabalho voluntário. Que descobri quem é Deus. Que abandonei o tratamento. Que respiro fundo para encontrar a calma. Que visitei algumas vezes a sua cidade. E me apaixonei. Que gosto de outros tipos de filme. Que detesto suas teorias. Que fui distímica. Que fiz uma tatuagem. Que acumulo livros lidos pela metade. Que não sei mais nada sobre a sua vida. Não, você nunca vai entender os meus paradoxos e as minhas indecisões. Nunca vai ler os pensamentos e entrelinhas que escrevi pra você. Nunca vai cumprir as promessas que me fez e eu nunca serei a sua garota. E você nunca vai saber que eu confiei quando você disse que a gente iria ficar junto... Passou. Eu já estou enferrujada para continuar acreditando na sua desonestidade, rapaz. Então, como ainda me permito pensar em você? Não, você não vai voltar. E eu não vou me arrepender.

Ah, eu só queria saber até onde a gente poderia ter chegado e mesmo que fosse ao fim eu sempre escolheria tentar. Mas você nunca vai saber. E eu também não.

f.

13 de nov. de 2014

Foi bom

Às vezes, é mais saudável chegar ao fim.
-Tiê


Vou olhar para mim e lembrar quem eu era.

Vou me lembrar da sensação de já conhecê-lo de outras vidas e das músicas que se perderam entre as mensagens do celular antigo. Vou me lembrar do perfume que você costumava usar e também do sorrisinho apaixonado que um dia eu cheguei a provocar. Vou me lembrar daquele sinalzinho fofo decorado abaixo do seu olho direito e, ainda mais, do seu carinho. Vou me lembrar do casaquinho de infância e dos passeios bonitos que a gente fez por aí; lembrar-me-ei dos ídolos, das manias e da excitação. Vou me lembrar das tardes ensolaradas no quarto e das conversas intermináveis. Vou me lembrar das risadas e da amizade, das histórias e das descobertas. Vou me lembrar do primeiro dia e vou me lembrar do último. Vou me lembrar das tentativas e das certezas. Eu vou me lembrar até das fotos que a gente deixou de tirar e dos banhos de mar que a gente não tomou. Vou me lembrar do amanhã que nunca deixará de ser futuro e do infinito que chegou ao fim. Vou me lembrar de você - só enquanto o ler aqui.

De longe, já esqueci.

f.

22 de out. de 2014

Para a tempestade

Um marinheiro me contou
Que a brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
-Chico Buarque de Hollanda



Chorei teu pranto como se fosse meu sem entender que tua chuva cessaria no instante em que me calhasse a decisão. Demorou essa coragem a chegar, mas surgiu no momento oportuno, como deveria ser. Meu barquinho não foi engolido por teu mar e sobrevivi a teu embalo furioso, apesar de quase sucumbir. Essas águas já não me convencem mais que eu não sou suficiente pra vida. Eu sou só e isso é poesia. Hoje posso brilhar até nos dias nublados, sem me sentir criança diante de tanta imensidão. Eu beijo o sal da tua tristeza para me curar dos naufrágios. Agora, eu danço com o vento, por cima do teu volume, fazendo das minhas dores a bússola para seguir adiante. É noite apenas na tua alma. Desalmada. Eu quero horizontes mais vibrantes, tempos mais excitantes e sonhos maiores que o medo. E sem acreditar na tua névoa eu chego até sem pedir. Eu sou o teu oposto, a tua calmaria. Eu sou a existência de nós duas, tola tempestade, que levou minha sanidade e levantou minha força.

E renasço.

f.

30 de jul. de 2014

Do que está dentro


Se preocupa, não, moreno, que hoje sou eu quem vai falar. Não meu orgulho, ou egoísmo, ou o que quer que se atreva a assustá-lo com exigências arbitrárias. Senta um pouco que o papo vai ser longo e pode até cansar, mas te juro, é preciso dizer tudo de uma vez. E quero, antes, deixar registrado para que você não confunda um simples desabafo com cobrança. Porque, não, não é sobre você, é sobre mim.
Desculpa se só enxergo agora, mas foi sempre-sobre-mim: as idealizações exacerbadas, as reclamações tolas e copiosas, os pedidos infantis e o resto da baboseira toda. Tudo eu tentando fazer você acreditar que ainda sou a melhor para você e a verdade é que, talvez, eu não seja mesmo. Mas, tudo bem, porque resolvi sair da clausura do quarto para buscar minha redenção. Percebeu? Já é um começo! Só que, dessa vez, não vou simplesmente esperar que o tempo feche, cure, passe, conforte e o diabo a quatro.
Eu descobri, moreno, o que estava na minha frente este tempo todo. A placa de saída, bem no meio da minha testa. Sou eu quem precisa mudar. Sou eu quem precisa superar os traumas. E eu estou, cara, cheia deles. Bem lá no fundo, monstros de anos e anos, até de antes de você chegar. Todos acumuladinhos, espremidinhos por todo canto.
Eu sofro de raiva, moreno. Em metástase. Tem raiva no fígado, raiva nos pulmões, na garganta, nas palavras, nas rugas da cara fechada. Tudo aqui, esse tempo inteiro, e eu apontando os problemas para os rumos errados. O problema sou eu. E a solução está em mim. Não em você ou no próximo relacionamento falido. Porque é assim que ele e qualquer outro terminarão se eu insistir em carregar essa fúria comigo. Já tá pesando, sabe. E é hora de desocupar a bagagem.
Não queria ter que dizer o quanto o quadro é complicado para não se tornar um mantra, mas, você precisa ter ciência de que leva algumas estações até sarar. E, não, issaquí tampouco é um pedido de espera. É só pra você saber que eu estava certa o tempo todo. E estava lá, no meio das nossas conversas, a resposta, prontinha pra gente. Pra mim. Você é mesmo minha alma gêmea, moreno. Bem como lhe falei naqueles primeiros e-mail trocados, sem conhece-lo direito.
Citei o livro que tinha lido. Destaquei a passagem que fiquei remoendo horas a fio, pois não sabia se concordava por completo. Dizia assim: “[...] As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa [...] As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora.”
Você deve imaginar muito melhor agora essa minha dificuldade para deixar as coisas e pessoas irem. Porque continuo almejando que você fique. Mas é você, moreno. Agora eu sei, você tinha que me mostrar o que estava me matando. E eu precisava saber antes que isso me eliminasse sem, ao menos, me dar a chance de tentar uma cura. E, olha, já entendo que eu não preciso ser a sua alma gêmea também. Reciprocidade é algo que a raça humana inventou para massagear o ego. Eu esperei tantas coisas em troca e isso só me deixou mais doente quando elas não saíram conforme as minhas expectativas. Mas, amor se dá e só.
Agora tenho que puxar parte desse afeto pra mim. É apenas um componente do processo, senão não faria sentido “amar o próximo como a si mesmo”. Que tipo de apreço seria esse, afinal? Estou assimilando as respostas e concretizando uma recuperação. É lenta, viu, e às vezes parece não ter jeito. Mas te digo que é preciso parar um pouco de conjecturar teorias sobre tudo e olhar mais para dentro de si mesmo. Às vezes, a gente se perde ao se distanciar do eu verdadeiro e o resultado de quem a gente se torna nem sempre é uma reação positiva.
Então isso aqui é para você saber que agora estou muito mais na minha. Que eu não quero o que você não pode me dar. Que você não deve se sentir cobrado por nada. Que você não é o único responsável por aquilo que cativa. Que eu não preciso de um pai ou guardião... Só te peço um pouco de cuidado para não desenvolver compaixão de mais em vez de respeito.
Essa mudança não é por você, moreno, é por mim. E, claro, você pode segurar minha mão, se quiser. Mas só se quiser.


f.

18 de jul. de 2014

O mundo ainda é bonito, moça

Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start
 -Coldplay


Eu sei que você sempre foi insegura e lenta e idealista. Que se deixou manipular e usar algumas vezes e, noutras, nem sequer observou o que estava acontecendo. Criou malícia para sobreviver aos dessabores e foi desacreditando da bondade. Eu sei que você emprestou e alguns não te devolveram. Que apostou, mas apostou em enganos. Eu vi você entregar a confiança, o coração e a alma. Você contou os dias para o seus aniversários e calculou as horas para o próximo encontro. Quis ser publicitária, advogada, atriz queridinha de Hollywood e até testadora de videogames. Mudou de filme favorito algumas vezes e leu menos livros do que gostaria.
Você nunca teve um amor de verão e em suas orações já pediu por uma história pela qual valesse a pena ter existido. Você é cheia de ideias que nunca coloca em prática. Tem medo de se expor e ser criticada. Costuma soltar sinceridades que, de vez em quando, não são bem recebidas. Mas também já mentiu, já traiu, já iludiu, já omitiu. Eu sei que o peso do mundo lhe quebrou por mais de uma oportunidade e você achou que jamais se recuperaria, mas eu vi você juntar cada estilhaço e se fortalecer com a experiência do dano.
Você conheceu e desconheceu pessoas. Guardou saudades no fundo da gaveta e depois esqueceu. Brincou de ser gente grande até ter que levar o assunto a sério. Você acredita em aventuras, mas parece que nunca as vive. Sente que está parada, mas não faz ideia de como sair do lugar. É do tipo que luta pelas pessoas mais do que pelos sonhos e se pergunta a todo o momento se está fazendo errado. Você já defendeu uma visão mais otimista da vida, mas ainda faz questão de sustentar esperanças até o último milésimo. Alguns hábitos nunca mudam.
Eu sei que você não lembra direito de quem era antes da faculdade, da morte do pai, do primeiro beijo ou do menino que poderia ter sido o homem da sua vida, se ele quisesse. Mas ele não quis. Você sabe que poderia ter chegado mais longe e sente medo do que pode incidir, ou não, se não mudar a estratégia logo.
Talvez, se você conseguisse olhar para frente sem se sabotar... Se houvessem meios de dar o primeiro passo sem esperar por ninguém ou por algum milagre, você descobrisse a coragem que ainda reside por dentro. Que este ainda não é o fim da linha. Que os quase trinta não lhe fazem velha de mais para realizar.
Dá pra ser forte sozinha, moça. Dá pra amar sozinha, a si mesma, e ser feliz pelo resto da vida. Buscar isso no outro é dar crédito demais a um compromisso que é inerente a cada um consigo mesmo. Você anda desequilibrada, moça. Precisa de algo além do espelho para se enxergar. Tente meditação, acupuntura, psicoterapia, homeopatia, dança, baralho. Procure o que lhe faz mal e jogue no lixo. Vá atrás da pessoa certa, vá atrás de você. Não se abandone, não. Não desista, não.
Você acha que já viveu de mais, mas dá para começar do zero. Contanto que você ofereça o máximo, que tente o quanto der, enquanto der, está fazendo sua parte e é o que importa. Corra o seu caminho que o mundo ainda é bonito, moça. E ainda existe futuro. Ainda existem sonhos. Ainda existe amor pra você.

f.

3 de jul. de 2014

O que eu faço quando sentir saudade?

Ou Sobre se apegar

Se fosse só sentir saudade,
mas tem sempre algo mais...
-Legião Urbana


 Querido,

Admito que o apego seja uma das maiores tolices que aprendi na vida. Antes da matemática – da qual só absorvi o básico - e das boas maneiras, havia o apego. Isso explica a demora em me despedir da chupeta, os cadernos e apostilas da faculdade mofando na estante, a dezena de agendas enfileirada na velha escrivaninha e os quebra-cabeças montados incansavelmente durante a infância, agora cobertos por teias de aranha em alguma parte esquecida do guarda-roupa.
Claro que são apenas singelos itens de uma lista interminável sobre uma mania quase impenetrável de viver a vida perigosamente. Porque você sofre. É. O mal ultrapassa a mera cordialidade de acumular objetos que fizeram parte do seu passado pela estúpida incompetência de romper os laços de memórias.
Além dos assuntos tangíveis, há a in-pretensão psicopata de guardar o não palpável. É a vontade de transformar todas as suas amigas em irmãs, para morarem na mesma casa que você e não haver necessidade de esperar até a hora da brincadeira, sempre breve e nunca suficiente. É o choro descontrolado por ver a irmã de verdade voltar para sua cidade-casa do feriado e não poder ir junto. É a depressão por ter que retornar à rotina monótona depois do mês leviano de férias ensolaradas. E, finalmente, é a falta, expectativas rasgadas e canções devolvidas que não mais poetizam momento nenhum.
Eu me apego a pessoas, veja só. Eu, que me armo como antissocial e aprecio demasiadamente os raros momentos de solitude, tenho inclinação natural e irremediável por empilhar, em cantos abstratos, os frios na barriga e as crises de riso. E dentre todas essas pessoas e sensações, eu te elegi, nem faz tanto tempo, a minha favorita. Cê sabe, sou dessas.
Estou agora virada pelo avesso, porque já fui avessa à ideia de me apegar, bem quando o lema principal era manter distância para não gostar demais. Lutei profundamente contra, até perceber a revoada dentro do peito. De novo.
Desculpa, mas eu fico boba até com a ideia de você ter se apaixonado por mim, viu!
Tanta conversa feminista e papo autoajuda não foram suficientes para me fazer esquivar por muito tempo. A resistência falhou. Sempre falha! Mas é a tal coisa, ninguém recusa um feriado prolongado porque a volta é motivo de desânimo e melancolia. Todos são gratos pelos dias extraordinários de trégua com o estresse, embora, no último, o que mais se ouça sejam pedidos chorosos para que qualquer milagre a estenda um pouco mais.
Acho que essa lógica funciona bem na intimidade. Depois que me desapeguei dos temores inúteis, passei a me permitir também, mesmo consciente das possibilidades de dor de cotovelo e coração partido. Em alguma hora, você até esquece que existem dores de cotovelo e corações partidos. E agora quem tem que partir é você.
Eu sei que o meu drama é chato, que você vai, mas volta e blablablá... Mas, o que eu faço quando sentir saudade? Porque andar algumas poucas quadras pra te encontrar é diferente de atravessar o país e eu já doo por antecipação, sabe! Não quero causar a impressão que não apoio, porque tô do seu lado, mesmo que um montão de distância seja acrescentado a nossa fórmula. Só espero que a espera signifique uma certeza no final das contas. Que esse buraco geográfico não seja o bastante para descarrilhar a reciprocidade, entende!
E se tiver que oferecer um incentivo, eu rogo: vai, querido! Que tanta afeição não é suficiente pra te prender. Nem que eu provoque aqui a batalha do século contra o desejo de que você fique. Trago em mim a obstinada faculdade do despojamento, de engolir a mesquinhez do meu egoísmo, de subverter a inexperiência da minha alma, de aceitar, ainda que com atraso, as tramas que são a mim impostas.
Mas, ao destino aviso que vou continuar me apegando e acreditando que experimentar é mais sábio que se arrepender por inanição, porque eu tenho esse apego infinito pelo lado bom da vida. Você.

f.

15 de jun. de 2014

O mundo dentro de nós

’Cause all of me
Loves all of you
-John Legend


Nossas mãos brincando entre si, preguiçosas. É tudo ao que assisto nessa entorpecente tarde, enquanto, vagarosamente, desenho um sorrisinho, daqueles que a cada minuto se dá conta de toda magia invisível. O colchão é um lar que recebe da vidraça as frestas da luz que entra. O mundo lá fora é só mais um planeta avulso que não faz ideia do amor que aflora entre quatro paredes e o infinito. E debaixo da nossa janela ensolarada, uma ternura incontável pela vida que ainda vai acontecer. Ele me promete sorvete de leite condensado, faz mais ou menos uma hora. Mas ele não vai. Nem eu insisto. A geladeira parece tão além do que se consegue esperar, que seria perda de tempo tentar. Está tudo tão quieto e eu adoro fazer esse nada com ele. É nessa maré que me dou conta do quanto já conheço cada dobrinha, cada ruga e formato dos seus dedos. E não tem volta. O tempo nem parece andar e eu só posso pedir para que cada segundo se alargue na sensação de horas. Está tudo tão fora da realidade agora que se fosse acaso eu até tenho certeza de que me apaixonaria de novo uma centena de vezes mais. É tanta intensidade e querência! Desejo seus beijos mais que água. Só que olho pro lado e ele quase dorme. Paraliso. Eu queria, queria fazê-lo compreender sem profusão de verbo que o espaço que ele ocupa é bem maior do que o que, normalmente, proponho. São dele os arrepios e as promessas de mindinho. O plano A e o plano B. Os filhos com o nome dos nossos ídolos e os passeios mais memoráveis pelas esquinas do mundo. Eu queria fazê-lo perceber o chão tremendo quando o meu coração pula acelerado, ainda, depois de tanto tempo, pelo menor indício de elogio e admiração. Quando ninguém mais consegue alcançar o que atravessa meus pensamentos esquisitos, eu sei que posso confiar a ele os esconderijos, os alarmes e os amanhãs. Que afora dores e partidas, hoje escrevo muito mais sobre os abraços. Que ele me fez renascer para a vida que eu havia enterrado numa rotina maçante e cômoda, sem fazer cálculo de toda a perda. Eu sou ele um pouco mais que a mim mesma, em boa parte dos dias, embora isso seja mais censurável que poético. E whatever! Entre mudanças de opinião e alguns pontos de vista, ele continua sendo meu reflexo e nossas falhas tão cúmplices quanto sempre. Ah, eu queria fazê-lo entender que nenhum presente de aniversário, natal ou dia dos namorados vai me improvisar sentimento melhor do que o que chega com suas intenções de carinho. E é tão bom sentir que nós nos completamos. Não que isso sugira alguma falta, mas juntos, ficamos mais bonitos. E somos mais fortes. E encontramos mais coragem. E nossa coleção de música e livros cresce. E as segundas-feiras se tornam mais fáceis. E a vida vale um pouco mais a pena. Às vezes, eu só desejo me fundir nos seus braços-de-casa e morar lá até o fim. Mas as únicas palavras que solto são que o amo. Mesmo querendo despejar todas essas outras urgências, eu só consigo articular o tantão do básico: eu-te-amo. De olhos cerrados, ele só abre um daqueles sorrisos cínicos. De alguma forma ele sabe.

f.

1 de jun. de 2014

Depois, a calmaria

Eu podia estar agora sem você
Mas eu não quero
-Marisa Monte


Não entendo porque quando penso em você todos os seus gestos me aparecem em câmera lenta com cortes explícitos de melhor companhia da terra. Mas faço questão de dar esse mergulho para dentro de seus olhos quase invadidos em um sorriso incoerente de rapaz tímido, porém valente. Eu rebobino a cena mil vezes e fico lá estática, esperando seu apertinho na minha bochecha, como numa doce tentativa de me despertar. Só que estou bem acordada, e ainda mais, abismada, por perceber tão tarde que você é a maior certeza que quis pra minha vida. Então, já não acho de mal admitir que minha cegueira seja uma das maiores da galáxia. Se não fosse pela sua coragem, será que eu ainda estaria esperando amor em outras direções? Até para aprender o inconfundível eu levo um tempo danado de longo. Ainda estou tentando domar tanta tendência a hiperbolizar os nãos e a ser possessiva além do extremo, mesmo que seja quase impraticável aniquilar o fato de que depois de estar com você o que eu mais quero sempre é estar com você. É engraçado isso! Ainda que ao seu lado, eu sinto a maior saudade do mundo. E talvez não seja preciso fazer algum esforço por compreensão. Você destrói minhas manias para se fazer vício de fim de tarde, manhã chuvosa e noite clara de verão. Não... na verdade, você é vício de todas as horas e estações e eras juntas, sem intervalos. E depois de me sentir tão pequena sem você, eu acho que não existe mais e ainda por um tempo aquela impressão de infalibilidade ou sentimento de arrogância. Disseram-me, sim, que eu poderia me reconstruir e viver apenas por mim e embora eu aquiescesse à veracidade dessas palavras, apenas não queria me ater à ideia clichê, e conveniente, de que o que é nosso volta. Não, não e não! Deixa, rapaz, eu ser teimosa e chata assim por mais um tempo, porque eu aspiro é todo o tempo pra nós dois. Um agora sem hiatos, sem barreiras, sem justificativas para viver de mentira até a dor cansar. Tô voltando a confiar. Eu quero poder ceder mais e julgar menos; entregar mais e esquecer consequências reversíveis. Quero fazer planos para daqui dez anos e ver a gente acertando e acontecendo sem improbabilidades. Não faz mal se você bravejar o “menina!” quando ficar impaciente, se a gente pode esquecer as pequenices e seguir fazendo piada do que não merece importância. Vou continuar nessa de pedir para os ponteiros atrasarem as despedidas até que elas desistam. Quero provar pra todo mundo que a gente se gosta tanto, tanto, tanto que até o fim se esqueceu de acabar pra virar começo de novo.

f.

13 de mai. de 2014

Ainda tão sua

Se não sabe, se afaste de mim.
Se ainda cabe, me abrace enfim.
-Nando Reis


Você costumava ter um olhar tão repleto de brilho que eu conseguia ver, até mesmo a metros de distância, que era eu quem provocava essas fagulhas, que sempre me lembravam das estrelas em noite de céu sem nuvem. De alguma forma, eu era importante pra você e esse olhar era que dizia sem nem precisar de sujeito e predicado. Sem nem precisar ligar o alarme ou por anúncio na tv. Era simples e ponto final. Tinha vontade e tinha verdade. E tinha também um sorriso instantâneo que era todo e só pra mim. Você costumava ter um amor... quase que incondicional pra pouco tempo de vivência. Eu fui deixando os medos se perderem no caminho e segui com a confiança que você me emprestava vezenquando a cada ocasião que perdoava os meus tropeços sem pestanejar. Eu fui me acomodando ao seu abraço e me fazendo completa a cada ameaça de beijo. Eu fui, fui feliz distraidamente, pela naturalidade do nosso sentimento e, mais ainda, pela intensidade do que a gente queria viver pela frente. Fui te fazendo de base pra vida toda até perceber que junto com os medos alguma coisa boa também se perdeu. Sobrou esse monte de insegurança e desespero que transbordam em cada maldita crise de afastamento. E acabei me dando conta que depois de todas as coisas boas e ruins, você nunca revelou seu atual estado de espírito. Daí, já nem sei se você me coloca nos seus planos de futuro porque é assim que realmente imagina ou se é porque eu estou na sua frente e, no fundo, não quer me ver chorar. Há quanto tempo você não liga só pra dizer que tá com saudade? Aliás, você chega a sentir saudade alguma hora por dia? Não sei se tenho muito mais tempo para essa brincadeira besta de mostrar ao outro que pode ficar sem ligar dois ou três dias sem nem sentir falta de nada. Eu sinto. Não tenho mais tempo para ser colocada na lista de espera. E me perdoe o excesso, se é assim que pensa. É que a última coisa que eu queria era ter que enfrentar o mundo sem a sua força. A última coisa que eu quero é ter que me desacostumar de você. Aí talvez eu não queira nem sobreviver.

f.

11 de jul. de 2013

Que eu te amo


Acabei de desligar o telefone, arrependida de minha boca ter calado o óbvio. É que eu ainda não aprendi a censurar o meu orgulho quando ele brinca de imperar a minha sensibilidade. Você deveria saber que eu fui criada como filha única, mesmo não sendo, e esse descuido foi suficiente para refletir na forma como eu gosto de ser tratada. Eu bem sei que a sua alma livre não se prende a certos padrões de posse, mas, às vezes, essa tentativa de monopólio é a única coisa que me resta para me fazer sentir segura quando você insiste em permanecer longe. Deixa isso para o tempo. Se eu pudesse, pedia para ele nem passar por nós, ou pelo menos pra ele passar longe e desatento pra vida passar a ser suficiente. Igual a quando a gente ta junto e tudo, tudo, tudo tem cheiro e cor de infinito. Mas parece que a garganta engole o discurso e o inconsciente mina a lucidez. Desculpa se eu não consigo falar das coisas boas. Eu me ponho para fora é nesses estados tolos de dores eloquentes e desnecessárias. É que eu me armo com palavras idôneas, outras dissimuladas, para me expor da forma mais dilacerante possível. E torço para você não ver, para você não ler esses pensamentos desmesurados e desconcertantes. Para você não saber que a minha loucura é maior que o disfarce que me veste como normal aos olhos dos outros e até para você, que depois de tantos transtornos causados por mim, permanece convicto na ideia de dividir a casa quadrada comigo. Agora diz, como fazer pra não surtar quando os planos não saem como a gente imagina? Eu sou drástica, sou trágica, é verdade. Mas o que você não entende é que o que eu já perdi nessa vida me deixou a sensação de que se eu tiver de passar por tudo de novo, talvez eu não sobreviva. E eu preciso viver enquanto você estiver ao meu lado. Então agora você já deve imaginar qual é o meu medo, não? É o que estou sentindo agora pela minha boca ter calado o óbvio.

f.

8 de mar. de 2013

Prefiro o imperfeito



Usar sua apatia para me provocar, eu te garanto, meu bem, é tolo e é detestável. Apontar constantemente tudo que não gosto em mim, mesmo afirmando o quanto adora cada falha, soa, no mínimo, impensado - é que eu já convivo de mais com cada uma. E negligenciar cada pequena promessa rotineira por motivos menores, querido, parece tão vil, e insensato, e decepcionante... Mas sua falta de sensibilidade não me tenta arrependimentos ou recuos. Seu despreparo para relacionamentos não me desvia a percepção que você já me ensina muito. Ensina porque não é só idade ou experiência que fazem o cara maduro. Às vezes você só conta com intuição e vontade de acertar e se acertar. Só que deixar as coisas sempre perfeitas só funciona no comecinho, sabe, quando a gente acha que tudo é fábula porque encontrou a pessoa da vida. Depois o faz de conta se dissolve na rotina. Depois, fica mais raro acreditar em faz de conta. E cada vez mais difícil abraçar os contrastes, e tocar as certezas. E com você, meu bem, eu tenho aprendido que o conto-de-fadas-nosso-de-cada-dia está nessa imperfeição, nesse jeito principiante de experimentar o universo. Porque é uma delícia encontrar o final feliz depois de um desentendimento bobo, e a gente pode colecionar muitos, né, finais felizes, todos os dias?! E você está certíssimo quando pede para eu não te comparar a ninguém, você é sempre um pouco mais do que eu espero e isso, às vezes, até me faz sentir banal, porque eu queria mesmo gostar de pirar nos shows com você, e ser amiga dos seus amigos, e não me importar tanto com demonstrações públicas de afeto, e deixar você orgulhoso de mim e de nós. Enquanto eu faço esforço para não me sentir tão dependente, eu chego à conclusão que não há como voltar a ser quem se era, mas por você, eu não preciso abandonar minhas neuroses e outras paranóias de infância. Você consegue aceitar meu lado sombrio e isso já é um incentivo. Mesmo nos estranhando por alguns segundos ao dia, a gente ainda se enxerga como espelho do outro e somos, de fato, esses dois orgulhosos-donos-da-razão-que-combinam-até-nos-defeitos. Isso é tão realidade que me sinto na obrigação de agradecer todas as manhãs pelo encanto não acabar à meia noite. E, caso não sejamos felizes para sempre, amor, podemos ser felizes enquanto der. Sempre.

f.

18 de fev. de 2013

Do que eu não soube dizer na hora certa


A casa já não é a mesma, a bagunça agora é só minha e eu ando a passos breves entre pó e histórias procurando outros espaços para me esvaziar. Não sei para qual direção posso confessar os restos do amor que se esgotou, mas voltar atrás é declarar um interesse que não existe por alguém que não merece olhares desatentos nem respostas monossilábicas.
Entendo que o seu lado da história me julga a pior vilã de todos os romances que pareciam ser feitos para darem certo. Sei que cartas não bastam, pedidos de desculpa não apagam as centenas de planos que foram postos no lixo e a sinceridade é apenas uma mentira lavada que não convence e muito menos consola. Mas tinha que, de algum jeito, tentar localizar os muitos pontos que ficaram perdidos entre os destroços e colocá-los de volta em seus respectivos lugares.
E o primeiro deles é que valeu a pena. Eu desisti porque perdeu o sentido. Para mim, pelo menos. E não foi pelas vezes que você interrompia minha fala com beijos. E não foi por seus defeitos, eles sempre neutralizaram minha chatice excessiva e atitudes imaturas conduzidas por razões egocêntricas. A gente se guiava por um amor errado, que nos levou pelo caminho mais difícil e por isso mesmo inteiramente válido.
O afeto não acabou com um game-over e não é um final de jogo que estampa o nosso adeus. Assim, voltaríamos ao princípio sem sequer um sinal de aviso, sem nem uma linha escrita para provar que a gente viveu de verdade. E o que eu quero é que você possa começar de novo usando tudo o que você aprendeu com a nossa brincadeira séria de ser o melhor pro outro. O que eu espero é que você ultrapasse a vontade de sentir pena de si mesmo e achar que fez tudo errado por as coisas não terem dado certo.
No final das contas a gente deu certo da nossa forma torta. E agora é hora de voltar ao ponto de largada e tentar fazer as pazes com a nossa fé no mundo. Sim, porque esse recomeço também é meu, então torço de mãos juntas para que você não nos arremate como erro de percurso.
Dizer que não te amo mais não quer dizer que o amor acabou. Ele apenas se converteu para outra forma de sentir. Por tudo que a gente decidiu arriscar um no outro, pela chance de segurar sua mão e percorrer um quarto desse caminho ao seu lado eu só posso desejar que a gente encontre uma saída da forma mais serena possível. Mas, que a vida não deixe de acontecer intensa em todas as suas porções. Que a dança não pare com a pausa da música e que você aprenda a levar consigo a eternidade dos abraços somente até quando lhe fizerem bem.

f.



8 de jan. de 2013

Pode ser pra sempre?

Sabe, quando a gente tem vontade de encontrar
A novidade de uma pessoa
Quando o tempo passa rápido
Quando você está ao lado dessa pessoa
Quando dá vontade de ficar nos braços dela
E nunca mais sair…
-Nando Reis


Quis esquadrinhar para além de mim o quanto eu poderia aceitar alguém que não estava previsto no roteiro, tentei recusar a sensação de já conhecê-lo de outras eternidades depois de meia dúzia de conversas batidas, devo agradecer a sua paciência em me convencer que, mesmo sem saber, eu já lhe pertencia mais do que supunha. Doce foi achá-lo distraidamente e descobrir que em você estava o amor que eu não busquei e não pedi e não esperei... porém era o único de que precisava.

E precisava, também, dessa sua complacência escancarada, do seu olhar pairado na minha mania de inventar caras e bocas e da sua de transformar tudo em música. A minha força não seria tanta se você não estivesse disposto a me abrir seus braços. Você se tornou a inspiração que devoro assiduamente e seu nome ocupa todos os sentidos de felicidade.

Lembro de querer alguém que percebesse quando eu não estivesse por perto, que eu não estava por perto e ouvir você me ligar todo bobo só para dizer que ‘tá com saudade me enche de vaidade por dentro. Rendo-me a pieguices desde que os desencontros se aposentaram de mim. Pode se sentir culpado, eu já aprendi a flutuar e me sinto ainda mais leve sempre que experimento o seu amor abraçar meu coração.

Minha mão já acostumou com o formato da sua e é o som dos nossos passos que gosto de escutar quando penso no futuro. Adoro como você ajeita os óculos no rosto e principalmente o fato de ter me escolhido como a mulher da sua vida. Adoro quando repara minha fala errada e me faz confiar que a gente combina até de olho fechado e pelo avesso. Adoro sua habilidade em me fazer feliz.

Você me beija e perco o medo de enfrentar o mundo, então não olho para trás quando você se afasta, é tão pesado vê-lo indo embora, mesmo sabendo que depois da bifurcação o mais óbvio é que os nossos caminhos voltem a andar juntos. Eu sei que estar ligada a você é a forma mais livre de ser, por isso não estou preparada para perdê-lo para outros destinos. Podemos amarrar todos os problemas num balão e unir minha caneca de café com a sua de chá. Assim a gente conserta a vida.

Nunca lhe disse, mas é o seu sorriso que tenho emoldurado nas retinas e é pelo seu toque que perpetuo cada manhã como um pedaço de paraíso, pois onde você estiver eu vou querer estar inteira, ainda que eu não saiba ecoar as palavras certas para traduzir tudo isso. Ainda que o infinito seja miúdo para tanto amor.

f. 


28 de jul. de 2012

Resoluções de meia-idade precoce

Oh Lord, I'm still not sure what I stand for 
What do I stand for? 
-Fun.


Há um quarto de século, eu estava experimentando o mundo pela primeira vez. Viver costumava ser seguro, sereno e com algum conforto. Até me deixei deslumbrar pelos contos de fadas que me enfiavam goela abaixo na infância [mas isso é pauta para outro assunto]. Eu era a café-com-leite num jogo amistoso, então não precisava me preocupar em ganhar ou perder, eu simplesmente não ganhava nem perdia. Eu, no meu canto, do meu jeito, era o centro do mundo até ele se virar contra mim. Tropecei, escorreguei, cai. Ainda acho que fui protegida demais.

Deram-me pouca noção das atrocidades que poderia encontrar pelo caminho, não me avisaram que eu estaria sempre rodeada por malícia e confusão, esqueceram de me informar que as relações são tão frágeis quanto papel e que tudo isso se acumula automaticamente no fundo do bolso.

Eu já tive todas as certezas a minha frente e depois as perdi, eu já tive muitas oportunidades jogadas como buquê, mas não compareci à festa. Eu tento não parecer ingrata, mas a minha fé leva ranhuras cada vez mais densas. Cadê o bonde que não vem? É para ficar aqui olhando toda a gente passar e ultrapassar? O meu tempo também tá passando, e aí?

Nunca pensei em seguir a pé, mas dar o primeiro passo é tudo o que me resta agora. Porque cansei de fugir da vida para me proteger, não quero mais fechar os olhos se meus sonhos estão lá fora esperando que eu levante e lute por eles. Às vezes, tudo o que se precisa é largar medos, apegos e encarar. Desistir não é mais opção. Eu sei que minha coragem está reclusa em algum cômodo da casa e já está na hora de arejar os espaços. Meta. Foco. Persistência. Não é assim que funciona?

Reconhecer a necessidade de se salvar sozinho é a última saída quando todas as outras se esgotam. Viver de autocomiseração, maldizer o universo e se fazer de vítima para tudo que dá errado é puramente escolher anular o escore, é preferir ficar no banco de reserva enquanto observa os outros jogadores fazerem história. Mesmo que eu me lance em mar aberto, decido me perder nas tempestades a ser mais um grão de areia consumida pela covardia. Acho que não importa o meio que defino para ir, contanto que eu siga.

Hoje, como um dia de cada vez, deixo a chuva nos meus olhos florescer o meu sorriso em gotas de esperança.


f.

6 de jun. de 2012

Sinto, logo escrevo



Não há segredo, teoria, fórmula ou equação. É uma expressão, uma vontade, um ato. Em palavras despisto minha loucura e esboço novos sonhos. Encontro uma parte de mim que só se mostra no papel; expulso, em doses, sentimentos que só se moldam às linhas retas e tortas de qualquer superfície que convenha ao propósito de experimentar e compartilhar vida. Arranjo letras em simetrias nem sempre coerentes e elas me movem a rumos distantes para provarem que eu tenho de passar por tudo isso. Eu conto partidas, conto saudades, conto amores e conto encontros. É um prazer desinteressado de quem nas entrelinhas revela esconderijos e dissimula o óbvio. Escrevo para descobrir modos de me resolver sem abreviar minhas chances. Alargo o mundo em milhares de idéias e deixo registrado em tinta todas as histórias que cruzam a minha própria. São escolhas que precisam ser escritas, não ditas.

f.

"Se a  tua dor te aflige, faz dela um poema".- Eça de Queiroz

1 de jun. de 2012

Eu espero


Eu ia dizer que te amei muito, aí lembrei que o verbo no pretérito é somente a mentira na qual eu me forço a acreditar. Hoje, a gente só divide a distância, mas já houve época em que o céu não cobria tanta afeição. Queria ter notado depressa quando o recíproco virou platônico, assim evitaria uma porção de pedidos jogados ao alto para você me querer um pouco além de mãos dadas e beijo na testa. 
Presto atenção em qualquer carro que passe pra ver se você está dentro, parece que ainda espero por uma carona no banco da frente. Não tem jeito, esperar é só o que me resta. Você não imagina o quanto esta cidade é triste. Ela não tem você, assim como eu, assim como nuvens baixas; aprendemos a chorar todos os dias. 
Aqui só existe uma ausência cheia de perfume seu. Falta a solidez para proteger meus delírios, a inclinação pra transformar tudo em mágica. Já peguei o telefone incontáveis vezes no impulso de te perguntar se você ainda topa, se ainda está disposto a me acompanhar naquela fantasia louca de querer ir à guerra ser correspondente, mesmo que meus pés estejam bem fincados nessas ruas calmas e a única guerra que amargo venha de dentro de mim. 
Pensei, então, em voltar aí pra te narrar a historinha da menina que se apaixona pelo melhor amigo e foge porque tem medo da rejeição, mas sou vencida por esse medo da mesma forma que sempre te escrevo essas cartas e as guardo dentro do peito. Tanta gente amando mais, se doando mais, e fazer parte da estatística não é opção. 
Não podia suportar outro minuto te ouvindo falar sobre a garota por quem você atravessaria o país para encontrar. Era tão difícil assim olhar pro lado e perceber que você não precisava nem dar meio passo pra achar alguém que cruzaria googols de terras por você? Não acho certo ter tanta vergonha de sentir, é tão insano, um amor tão bonito não devia precisar de disfarce, mas não tenho certeza que se eu disser você vai querer também. 
Prefiro não pensar que seu futuro não combina comigo. Renunciei aos milkshakes, ao banco da praça e ao seu abraço quente de apenas amigo; afastei-me para ver se você tem vontade de juntar a gente com algo mais forte que cola Super Bonder e nó de marinheiro. Preciso da sua vontade de ficar comigo. Do contrário, vou continuar acordando todos os dias morrendo de falta sua, tentando manter o sentido nessa espera e confiando, sei lá até quando, que o destino irá atrair o tempo certo pra nós dois, porque eu não sei dizer adeus.

f.

Layout: Bia Rodrigues | Tecnologia do Blogger | All Rights Reserved ©