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30 de jul. de 2014

Do que está dentro


Se preocupa, não, moreno, que hoje sou eu quem vai falar. Não meu orgulho, ou egoísmo, ou o que quer que se atreva a assustá-lo com exigências arbitrárias. Senta um pouco que o papo vai ser longo e pode até cansar, mas te juro, é preciso dizer tudo de uma vez. E quero, antes, deixar registrado para que você não confunda um simples desabafo com cobrança. Porque, não, não é sobre você, é sobre mim.
Desculpa se só enxergo agora, mas foi sempre-sobre-mim: as idealizações exacerbadas, as reclamações tolas e copiosas, os pedidos infantis e o resto da baboseira toda. Tudo eu tentando fazer você acreditar que ainda sou a melhor para você e a verdade é que, talvez, eu não seja mesmo. Mas, tudo bem, porque resolvi sair da clausura do quarto para buscar minha redenção. Percebeu? Já é um começo! Só que, dessa vez, não vou simplesmente esperar que o tempo feche, cure, passe, conforte e o diabo a quatro.
Eu descobri, moreno, o que estava na minha frente este tempo todo. A placa de saída, bem no meio da minha testa. Sou eu quem precisa mudar. Sou eu quem precisa superar os traumas. E eu estou, cara, cheia deles. Bem lá no fundo, monstros de anos e anos, até de antes de você chegar. Todos acumuladinhos, espremidinhos por todo canto.
Eu sofro de raiva, moreno. Em metástase. Tem raiva no fígado, raiva nos pulmões, na garganta, nas palavras, nas rugas da cara fechada. Tudo aqui, esse tempo inteiro, e eu apontando os problemas para os rumos errados. O problema sou eu. E a solução está em mim. Não em você ou no próximo relacionamento falido. Porque é assim que ele e qualquer outro terminarão se eu insistir em carregar essa fúria comigo. Já tá pesando, sabe. E é hora de desocupar a bagagem.
Não queria ter que dizer o quanto o quadro é complicado para não se tornar um mantra, mas, você precisa ter ciência de que leva algumas estações até sarar. E, não, issaquí tampouco é um pedido de espera. É só pra você saber que eu estava certa o tempo todo. E estava lá, no meio das nossas conversas, a resposta, prontinha pra gente. Pra mim. Você é mesmo minha alma gêmea, moreno. Bem como lhe falei naqueles primeiros e-mail trocados, sem conhece-lo direito.
Citei o livro que tinha lido. Destaquei a passagem que fiquei remoendo horas a fio, pois não sabia se concordava por completo. Dizia assim: “[...] As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa [...] As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora.”
Você deve imaginar muito melhor agora essa minha dificuldade para deixar as coisas e pessoas irem. Porque continuo almejando que você fique. Mas é você, moreno. Agora eu sei, você tinha que me mostrar o que estava me matando. E eu precisava saber antes que isso me eliminasse sem, ao menos, me dar a chance de tentar uma cura. E, olha, já entendo que eu não preciso ser a sua alma gêmea também. Reciprocidade é algo que a raça humana inventou para massagear o ego. Eu esperei tantas coisas em troca e isso só me deixou mais doente quando elas não saíram conforme as minhas expectativas. Mas, amor se dá e só.
Agora tenho que puxar parte desse afeto pra mim. É apenas um componente do processo, senão não faria sentido “amar o próximo como a si mesmo”. Que tipo de apreço seria esse, afinal? Estou assimilando as respostas e concretizando uma recuperação. É lenta, viu, e às vezes parece não ter jeito. Mas te digo que é preciso parar um pouco de conjecturar teorias sobre tudo e olhar mais para dentro de si mesmo. Às vezes, a gente se perde ao se distanciar do eu verdadeiro e o resultado de quem a gente se torna nem sempre é uma reação positiva.
Então isso aqui é para você saber que agora estou muito mais na minha. Que eu não quero o que você não pode me dar. Que você não deve se sentir cobrado por nada. Que você não é o único responsável por aquilo que cativa. Que eu não preciso de um pai ou guardião... Só te peço um pouco de cuidado para não desenvolver compaixão de mais em vez de respeito.
Essa mudança não é por você, moreno, é por mim. E, claro, você pode segurar minha mão, se quiser. Mas só se quiser.


f.

3 de jul. de 2014

O que eu faço quando sentir saudade?

Ou Sobre se apegar

Se fosse só sentir saudade,
mas tem sempre algo mais...
-Legião Urbana


 Querido,

Admito que o apego seja uma das maiores tolices que aprendi na vida. Antes da matemática – da qual só absorvi o básico - e das boas maneiras, havia o apego. Isso explica a demora em me despedir da chupeta, os cadernos e apostilas da faculdade mofando na estante, a dezena de agendas enfileirada na velha escrivaninha e os quebra-cabeças montados incansavelmente durante a infância, agora cobertos por teias de aranha em alguma parte esquecida do guarda-roupa.
Claro que são apenas singelos itens de uma lista interminável sobre uma mania quase impenetrável de viver a vida perigosamente. Porque você sofre. É. O mal ultrapassa a mera cordialidade de acumular objetos que fizeram parte do seu passado pela estúpida incompetência de romper os laços de memórias.
Além dos assuntos tangíveis, há a in-pretensão psicopata de guardar o não palpável. É a vontade de transformar todas as suas amigas em irmãs, para morarem na mesma casa que você e não haver necessidade de esperar até a hora da brincadeira, sempre breve e nunca suficiente. É o choro descontrolado por ver a irmã de verdade voltar para sua cidade-casa do feriado e não poder ir junto. É a depressão por ter que retornar à rotina monótona depois do mês leviano de férias ensolaradas. E, finalmente, é a falta, expectativas rasgadas e canções devolvidas que não mais poetizam momento nenhum.
Eu me apego a pessoas, veja só. Eu, que me armo como antissocial e aprecio demasiadamente os raros momentos de solitude, tenho inclinação natural e irremediável por empilhar, em cantos abstratos, os frios na barriga e as crises de riso. E dentre todas essas pessoas e sensações, eu te elegi, nem faz tanto tempo, a minha favorita. Cê sabe, sou dessas.
Estou agora virada pelo avesso, porque já fui avessa à ideia de me apegar, bem quando o lema principal era manter distância para não gostar demais. Lutei profundamente contra, até perceber a revoada dentro do peito. De novo.
Desculpa, mas eu fico boba até com a ideia de você ter se apaixonado por mim, viu!
Tanta conversa feminista e papo autoajuda não foram suficientes para me fazer esquivar por muito tempo. A resistência falhou. Sempre falha! Mas é a tal coisa, ninguém recusa um feriado prolongado porque a volta é motivo de desânimo e melancolia. Todos são gratos pelos dias extraordinários de trégua com o estresse, embora, no último, o que mais se ouça sejam pedidos chorosos para que qualquer milagre a estenda um pouco mais.
Acho que essa lógica funciona bem na intimidade. Depois que me desapeguei dos temores inúteis, passei a me permitir também, mesmo consciente das possibilidades de dor de cotovelo e coração partido. Em alguma hora, você até esquece que existem dores de cotovelo e corações partidos. E agora quem tem que partir é você.
Eu sei que o meu drama é chato, que você vai, mas volta e blablablá... Mas, o que eu faço quando sentir saudade? Porque andar algumas poucas quadras pra te encontrar é diferente de atravessar o país e eu já doo por antecipação, sabe! Não quero causar a impressão que não apoio, porque tô do seu lado, mesmo que um montão de distância seja acrescentado a nossa fórmula. Só espero que a espera signifique uma certeza no final das contas. Que esse buraco geográfico não seja o bastante para descarrilhar a reciprocidade, entende!
E se tiver que oferecer um incentivo, eu rogo: vai, querido! Que tanta afeição não é suficiente pra te prender. Nem que eu provoque aqui a batalha do século contra o desejo de que você fique. Trago em mim a obstinada faculdade do despojamento, de engolir a mesquinhez do meu egoísmo, de subverter a inexperiência da minha alma, de aceitar, ainda que com atraso, as tramas que são a mim impostas.
Mas, ao destino aviso que vou continuar me apegando e acreditando que experimentar é mais sábio que se arrepender por inanição, porque eu tenho esse apego infinito pelo lado bom da vida. Você.

f.

8 de mar. de 2013

Prefiro o imperfeito



Usar sua apatia para me provocar, eu te garanto, meu bem, é tolo e é detestável. Apontar constantemente tudo que não gosto em mim, mesmo afirmando o quanto adora cada falha, soa, no mínimo, impensado - é que eu já convivo de mais com cada uma. E negligenciar cada pequena promessa rotineira por motivos menores, querido, parece tão vil, e insensato, e decepcionante... Mas sua falta de sensibilidade não me tenta arrependimentos ou recuos. Seu despreparo para relacionamentos não me desvia a percepção que você já me ensina muito. Ensina porque não é só idade ou experiência que fazem o cara maduro. Às vezes você só conta com intuição e vontade de acertar e se acertar. Só que deixar as coisas sempre perfeitas só funciona no comecinho, sabe, quando a gente acha que tudo é fábula porque encontrou a pessoa da vida. Depois o faz de conta se dissolve na rotina. Depois, fica mais raro acreditar em faz de conta. E cada vez mais difícil abraçar os contrastes, e tocar as certezas. E com você, meu bem, eu tenho aprendido que o conto-de-fadas-nosso-de-cada-dia está nessa imperfeição, nesse jeito principiante de experimentar o universo. Porque é uma delícia encontrar o final feliz depois de um desentendimento bobo, e a gente pode colecionar muitos, né, finais felizes, todos os dias?! E você está certíssimo quando pede para eu não te comparar a ninguém, você é sempre um pouco mais do que eu espero e isso, às vezes, até me faz sentir banal, porque eu queria mesmo gostar de pirar nos shows com você, e ser amiga dos seus amigos, e não me importar tanto com demonstrações públicas de afeto, e deixar você orgulhoso de mim e de nós. Enquanto eu faço esforço para não me sentir tão dependente, eu chego à conclusão que não há como voltar a ser quem se era, mas por você, eu não preciso abandonar minhas neuroses e outras paranóias de infância. Você consegue aceitar meu lado sombrio e isso já é um incentivo. Mesmo nos estranhando por alguns segundos ao dia, a gente ainda se enxerga como espelho do outro e somos, de fato, esses dois orgulhosos-donos-da-razão-que-combinam-até-nos-defeitos. Isso é tão realidade que me sinto na obrigação de agradecer todas as manhãs pelo encanto não acabar à meia noite. E, caso não sejamos felizes para sempre, amor, podemos ser felizes enquanto der. Sempre.

f.

18 de fev. de 2013

Do que eu não soube dizer na hora certa


A casa já não é a mesma, a bagunça agora é só minha e eu ando a passos breves entre pó e histórias procurando outros espaços para me esvaziar. Não sei para qual direção posso confessar os restos do amor que se esgotou, mas voltar atrás é declarar um interesse que não existe por alguém que não merece olhares desatentos nem respostas monossilábicas.
Entendo que o seu lado da história me julga a pior vilã de todos os romances que pareciam ser feitos para darem certo. Sei que cartas não bastam, pedidos de desculpa não apagam as centenas de planos que foram postos no lixo e a sinceridade é apenas uma mentira lavada que não convence e muito menos consola. Mas tinha que, de algum jeito, tentar localizar os muitos pontos que ficaram perdidos entre os destroços e colocá-los de volta em seus respectivos lugares.
E o primeiro deles é que valeu a pena. Eu desisti porque perdeu o sentido. Para mim, pelo menos. E não foi pelas vezes que você interrompia minha fala com beijos. E não foi por seus defeitos, eles sempre neutralizaram minha chatice excessiva e atitudes imaturas conduzidas por razões egocêntricas. A gente se guiava por um amor errado, que nos levou pelo caminho mais difícil e por isso mesmo inteiramente válido.
O afeto não acabou com um game-over e não é um final de jogo que estampa o nosso adeus. Assim, voltaríamos ao princípio sem sequer um sinal de aviso, sem nem uma linha escrita para provar que a gente viveu de verdade. E o que eu quero é que você possa começar de novo usando tudo o que você aprendeu com a nossa brincadeira séria de ser o melhor pro outro. O que eu espero é que você ultrapasse a vontade de sentir pena de si mesmo e achar que fez tudo errado por as coisas não terem dado certo.
No final das contas a gente deu certo da nossa forma torta. E agora é hora de voltar ao ponto de largada e tentar fazer as pazes com a nossa fé no mundo. Sim, porque esse recomeço também é meu, então torço de mãos juntas para que você não nos arremate como erro de percurso.
Dizer que não te amo mais não quer dizer que o amor acabou. Ele apenas se converteu para outra forma de sentir. Por tudo que a gente decidiu arriscar um no outro, pela chance de segurar sua mão e percorrer um quarto desse caminho ao seu lado eu só posso desejar que a gente encontre uma saída da forma mais serena possível. Mas, que a vida não deixe de acontecer intensa em todas as suas porções. Que a dança não pare com a pausa da música e que você aprenda a levar consigo a eternidade dos abraços somente até quando lhe fizerem bem.

f.



8 de jan. de 2013

Pode ser pra sempre?

Sabe, quando a gente tem vontade de encontrar
A novidade de uma pessoa
Quando o tempo passa rápido
Quando você está ao lado dessa pessoa
Quando dá vontade de ficar nos braços dela
E nunca mais sair…
-Nando Reis


Quis esquadrinhar para além de mim o quanto eu poderia aceitar alguém que não estava previsto no roteiro, tentei recusar a sensação de já conhecê-lo de outras eternidades depois de meia dúzia de conversas batidas, devo agradecer a sua paciência em me convencer que, mesmo sem saber, eu já lhe pertencia mais do que supunha. Doce foi achá-lo distraidamente e descobrir que em você estava o amor que eu não busquei e não pedi e não esperei... porém era o único de que precisava.

E precisava, também, dessa sua complacência escancarada, do seu olhar pairado na minha mania de inventar caras e bocas e da sua de transformar tudo em música. A minha força não seria tanta se você não estivesse disposto a me abrir seus braços. Você se tornou a inspiração que devoro assiduamente e seu nome ocupa todos os sentidos de felicidade.

Lembro de querer alguém que percebesse quando eu não estivesse por perto, que eu não estava por perto e ouvir você me ligar todo bobo só para dizer que ‘tá com saudade me enche de vaidade por dentro. Rendo-me a pieguices desde que os desencontros se aposentaram de mim. Pode se sentir culpado, eu já aprendi a flutuar e me sinto ainda mais leve sempre que experimento o seu amor abraçar meu coração.

Minha mão já acostumou com o formato da sua e é o som dos nossos passos que gosto de escutar quando penso no futuro. Adoro como você ajeita os óculos no rosto e principalmente o fato de ter me escolhido como a mulher da sua vida. Adoro quando repara minha fala errada e me faz confiar que a gente combina até de olho fechado e pelo avesso. Adoro sua habilidade em me fazer feliz.

Você me beija e perco o medo de enfrentar o mundo, então não olho para trás quando você se afasta, é tão pesado vê-lo indo embora, mesmo sabendo que depois da bifurcação o mais óbvio é que os nossos caminhos voltem a andar juntos. Eu sei que estar ligada a você é a forma mais livre de ser, por isso não estou preparada para perdê-lo para outros destinos. Podemos amarrar todos os problemas num balão e unir minha caneca de café com a sua de chá. Assim a gente conserta a vida.

Nunca lhe disse, mas é o seu sorriso que tenho emoldurado nas retinas e é pelo seu toque que perpetuo cada manhã como um pedaço de paraíso, pois onde você estiver eu vou querer estar inteira, ainda que eu não saiba ecoar as palavras certas para traduzir tudo isso. Ainda que o infinito seja miúdo para tanto amor.

f. 


1 de jun. de 2012

Eu espero


Eu ia dizer que te amei muito, aí lembrei que o verbo no pretérito é somente a mentira na qual eu me forço a acreditar. Hoje, a gente só divide a distância, mas já houve época em que o céu não cobria tanta afeição. Queria ter notado depressa quando o recíproco virou platônico, assim evitaria uma porção de pedidos jogados ao alto para você me querer um pouco além de mãos dadas e beijo na testa. 
Presto atenção em qualquer carro que passe pra ver se você está dentro, parece que ainda espero por uma carona no banco da frente. Não tem jeito, esperar é só o que me resta. Você não imagina o quanto esta cidade é triste. Ela não tem você, assim como eu, assim como nuvens baixas; aprendemos a chorar todos os dias. 
Aqui só existe uma ausência cheia de perfume seu. Falta a solidez para proteger meus delírios, a inclinação pra transformar tudo em mágica. Já peguei o telefone incontáveis vezes no impulso de te perguntar se você ainda topa, se ainda está disposto a me acompanhar naquela fantasia louca de querer ir à guerra ser correspondente, mesmo que meus pés estejam bem fincados nessas ruas calmas e a única guerra que amargo venha de dentro de mim. 
Pensei, então, em voltar aí pra te narrar a historinha da menina que se apaixona pelo melhor amigo e foge porque tem medo da rejeição, mas sou vencida por esse medo da mesma forma que sempre te escrevo essas cartas e as guardo dentro do peito. Tanta gente amando mais, se doando mais, e fazer parte da estatística não é opção. 
Não podia suportar outro minuto te ouvindo falar sobre a garota por quem você atravessaria o país para encontrar. Era tão difícil assim olhar pro lado e perceber que você não precisava nem dar meio passo pra achar alguém que cruzaria googols de terras por você? Não acho certo ter tanta vergonha de sentir, é tão insano, um amor tão bonito não devia precisar de disfarce, mas não tenho certeza que se eu disser você vai querer também. 
Prefiro não pensar que seu futuro não combina comigo. Renunciei aos milkshakes, ao banco da praça e ao seu abraço quente de apenas amigo; afastei-me para ver se você tem vontade de juntar a gente com algo mais forte que cola Super Bonder e nó de marinheiro. Preciso da sua vontade de ficar comigo. Do contrário, vou continuar acordando todos os dias morrendo de falta sua, tentando manter o sentido nessa espera e confiando, sei lá até quando, que o destino irá atrair o tempo certo pra nós dois, porque eu não sei dizer adeus.

f.

3 de mai. de 2012

A você que escolheu ser mais um


- -
Eu poderia te jogar na cara todas as lágrimas que juntei em baldes só para medir o tamanho da sua indiferença. Eu poderia fazer uma exposição detalhada de todos os dramas montados para denunciar os tipos de vilão que você interpretou. Eu queria te arrastar até a cena dos crimes que você cometeu só para te mostrar quantas esperanças você matou em mim. E eu poderia me tatuar com uma amargura infindável para não esquecer o meu ódio e toda a mágoa que tomou o seu lugar.
Você usou uma lábia pronta para amortecer minha insegurança e conquistar territórios. Fantasiou-se com romantismo e me fez pensar que era o homem perfeito para qualquer mulher. Uma amarração frágil, uma carência mal entendida e lá estava eu sentindo tudo que não devia por você. Mas, você soltou minha mão no meio de um labirinto, e o que a gente tende a experimentar quando alguém nos abandona é o amor que fica não o que vai embora. A aspiração nessa hora é automaticamente esmagar os bons momentos com decepção e raiva.
Eu não fui exceção. Eu não ganhei o artigo definido antes da pessoa, da mulher, do sentimento. Tampouco reinei ao seu lado enquanto acreditava estar com a coroa na cabeça. Demorou até eu compreender toda sua sinceridade fingida e demorou até me por no meu devido lugar na lista de prioridades. Eis o porquê de te escrever essas linhas. Finalmente, posso ser franca sem a interferência de qualquer ressentimento que me reduza à mediocridade.
Admito que fui condescendente com as suas teorias sobre tudo,  escancarei portas, janelas e portões, eu deixei, eu quis, eu fui cúmplice e sem o seu incentivo eu não teria chegado tão longe. É por isso que me faço em palavras, preciso te dar o reconhecimento por ter me preparado para o mundo. Pessoas são feitas de marcas e você me cravou algumas que converti em meu benefício. Agora eu sei que cicatrizes são uma espécie de armadura que nos tornam menos relapsos. 
Obrigada por tantas vezes ter sido meu estímulo para levantar da cama e enfrentar meus pequenos monstros. Depois que o efeito passou, eu simplesmente deixei de ser menos para ser nada menos que o meu melhor. Mas você me ajudou a crescer, a andar sem muletas sentimentalistas, a rever parâmetros e priorizar urgências. Eu estou enxergando o mundo com outras lentes agora e o coração palpita livre dos restos ruins.
Não te culpo mais pelas minhas tragédias pessoais, infernos e melodramas. E isso me faz um bem sem precedentes. Deixar você ir foi como defenestrar um tanto de tralha imenso cujo prazo de validade havia expirado. Voltei a me deparar com tipos iguais ao seu e me orgulho de levar na bagagem a sua lição.  Antes que você questione, é de experiência que estou falando, garoto. Você me impulsionou a subir os degraus, pode se orgulhar! Você valeu a pena porque despertou em mim a necessidade de me fazer feliz acima de tudo.

f.

27 de abr. de 2012

Do tempo que a gente era



Estava dando uma geral na minha estante [coisa que não fazia há um bom tempo] e te encontrei lá na prateleira de DVDs. Entre filmes europeus e asiáticos e grandes diretores americanos me dei conta de que já não nos falamos há meses. Vê se pode? Meses! Logo nós que costumávamos nos falar diariamente. Daí eu tentei voltar aos fatos; se por descuido ou qualquer outra desculpa feita na hora a gente se afastou sem pestanejar. Não encontrei nada que valesse o período ausente, mas o tempo tem mesmo essa mania de correr enquanto se está distraído, não é!
Esquivei-me mil vezes de escrever esta carta sem a certeza de que ainda tenho o direito. Da última vez que eu tentei contato, meio apressada, você foi um tanto evasivo e seco e eu fiquei imaginando se não passou de uma resposta também apressada ou uma sugestão para eu não te incomodar mais. O que quer que esteja se passando, eu gostaria de entender os seus motivos e explicar qualquer coisa que você queira saber.
Eu sei que nem todos os meus textos foram sobre você, nem todas as poesias rimaram com o seu nome, mas você nunca deixou de ser importante. Você foi meu único amigo quando todos os outros sumiram e até aceitou minhas esquisitices, mesmo reclamando, você me aceitou.
Traz uma saudade histérica lembrar as horas sem fim de conversa fiada no meio da madrugada. Você me tirando do sério, do sono, da solidão. Você me fazendo rir. Você brigando comigo. Você cantando desafinado. Sua empolgação ao falar de filmes. Você me fazendo rir. Você me obrigando a ver vídeos do Youtube. Você falando sobre futebol [tédio]. Você me explicando como é a sua mulher ideal. Você me cantando. Você me fazendo rir, até esquecermos a lonjura, os problemas, o resto.
Eu tô é achando chato esse jeito de levar a vida sem ter pra quem contar os caprichos. Você também não sente falta de nada, nadinha, nadica de nada? Tirando a aposta que fizemos em nós mesmos, não sobra nem a amizade? Você simplesmente cansou? Embora seja óbvio que nenhum dos dois espere mais pelo outro, não cabe em você carinho e disposição para cultivar o que ficou em comum além do desejo? Eu realmente me recuso a crer na efemeridade dos nossos planos, porque me faz falta as suas expressões esdrúxulas e até sua mania estúpida de superioridade. O certo é que você sempre se preocupou comigo e sempre fez questão de dividir todos os seus dias.
Assumo parte da culpa, assumo também minha súbita e breve necessidade de me distrair em outros diálogos. Mas tô aqui sem máscara, sem meandros, sem a TPM que te assombrava de vez em quando, pra pedir pra você voltar pra minha vida, seja a conta-gotas ou como enxurrada. Que você volte e volte a disputar comigo quem tem o melhor gosto para filmes e séries e música e quem é o mais esperto dos dois. Tanto tempo sem as suas brincadeiras ácidas, sem seus comentários maldosos e eu nunca pensei que fosse querer ouvi-los outra vez. Você não combina com silêncio.
Só para constar, eu me formei, cortei o cabelo, me apaixonei, me desapaixonei, saí do Estado, pensei em fugir com o circo, mudei de idéia, tô fazendo pós agora e tô querendo notícias suas. Em nome dos velhos tempos, me conta ao menos se seu sorriso tem visitado seus lábios com frequencia, se os seus sonhos estão se realizando direitinho e se você parou de jogar tanto vídeo game. Aí eu paro, paro de te perturbar, de agir como intrusa quando o que você quer é apenas ficar quieto.  Só preciso saber que você tá levando, que tá sendo forte sem mim e que eu não careço mais desse coma induzido para não lembrar o quão longe você continua.

f.

2 de mar. de 2012

Carta de amor de um homem notável



Bom dia, em 7 de julho

Mesmo antes que eu me levante, meus pensamentos se dirigem a ti, minha Amada Imortal, às vezes com alegria, às vezes com tristeza, à espera de que o destino nos escute. Só posso viver totalmente contigo ou não viver. Decidi errar por lugares distantes até poder voar para teus braços e me sentir em casa contigo e poder enviar minha alma cercada de ti para o reino dos espíritos. Sim, lamento, deve ser assim. Irás superá-lo com mais facilidade sabendo da minha fidelidade a ti; outra jamais poderá se apossar de meu coração, jamais! Oh, Deus! Por que precisamos estar separados daquilo que amamos? E, no entanto, a vida que estou levando em W. é miserável. Teu amor fez de mim o mais feliz dos homens, e o mais infeliz. Na minha idade é preciso ter alguma continuidade, uma vida estável. Será que isso é possível numa situação como a nossa? Meu anjo, acabo de saber que a correspondência é remetida diariamente, portanto, preciso encerrar para que possas receber esta carta imediatamente. Fica tranqüila, ama-me hoje e ontem.
Em lágrimas, anseio por ti, minha vida, meu tudo, adeus. Oh! Não deixes de me amar e jamais duvides do coração mais fiel.

Do teu amado,
L.

Para sempre vosso
Para sempre minha
Para sempre nosso



Trecho retirado do livro Cartas de amor de homens notáveis [Love letters of great men, 2008], organizado por Ursula Doyle. Capítulo dedicado a cartas de Ludwig van Beethoven a sua Amada Imortal, pág. 69.

18 de mai. de 2010

Com amor, f.



Rosie,
Estou  voltando  para  Boston  amanhã,  mas  antes  de  ir  gostaria de
escrever  esta  carta.  Todos  os  pensamentos  e  sentimentos  que  têm  estado
borbulhando dentro de mim estão finalmente  transbordando desta caneta e
deixo  esta  carta  para  que  não  se  sinta  como  se  a  estivesse  pressionando.
Compreendo  que  vá  precisar  de  tempo  para  se  decidir  a  respeito  do  que
estou prestes a dizer.
Cei  o  que  está  acontecendo,  Rosie.  Você  é  minha  melhor  amiga
posso ver a tristeza em seus olhos. Cei que Greg não está fora trabalhando
no  fim  de  semana.  Você  nunca  conseguiu  mentir  para  mim,  sempre  foi
horrível nisto. Seus olhos a traem de tempos em tempos. Não finja que tudo
está  perfeito,  porque  vejo  que  não  está.  Vejo  que  Greg  é  um  homem
egoísta, que não faz absolutamente  idéia da sorte que tem, e isto me deixa
doente.
Ele é o homem mais afortunado do mundo por tê-la, Rosie, mas não
a merece e você merece muito mais. Você merece alguém que a ame a cada
batida  de  seu  coração,  alguém  que  pense  a  seu  respeito  a  cada  instante,
alguém  que  passe  cada minuto  do  dia  apenas  se  perguntando  o  que  você
está  fazendo, onde  está, com quem está e  se  está bem. Precisa de alguém
que  possa  ajudá-la  a  alcançar  seus  sonhos  e  protegê-la  de  seus  medos.
Alguém  que  vá  tratá-la  com  respeito,  que  ame  cada  lado  seu,
especialmente suas falhas. Você deveria estar com alguém que possa fazê-
la  feliz,  realmente  feliz,  flutuando  de  felicidade. Alguém  que  deveria  ter
aproveitado  a  chance  de  estar  com  você  anos  atrás,  em  vez  de  ter  se
assustado e se amedrontado demais para tentar.
[...]Eu nunca deveria ter deixado que seus lábios se afastassem dos meus
anos  atrás  em  Boston. Numa  deveria  ter me  afastado. Nunca  deveria  ter
entrado em pânico. Nunca deveria  ter passado  todos esses anos sem você.
Dê-me uma chance de compensá-los. Amo você, Rosie, e quero estar com
você e Katie e Josh, Para sempre.

Com todo o meu amor,
Alex


Trecho retirado do livro Onde Terminam os Arco-Íris [Where Rainbows End, 2005], da Cecelia Ahern. Cap. 19, pág. 134.


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