Ou Sobre se apegar
Se fosse só sentir saudade,
mas tem sempre algo mais...
-Legião Urbana
Querido,
Admito que o
apego seja uma das maiores tolices que aprendi na vida. Antes da matemática – da
qual só absorvi o básico - e das boas maneiras, havia o apego. Isso explica a
demora em me despedir da chupeta, os cadernos e apostilas da faculdade mofando
na estante, a dezena de agendas enfileirada na velha escrivaninha e os
quebra-cabeças montados incansavelmente durante a infância, agora cobertos por
teias de aranha em alguma parte esquecida do guarda-roupa.
Claro que
são apenas singelos itens de uma lista interminável sobre uma mania quase
impenetrável de viver a vida perigosamente. Porque você sofre. É. O mal
ultrapassa a mera cordialidade de acumular objetos que fizeram parte do seu
passado pela estúpida incompetência de romper os laços de memórias.
Além dos
assuntos tangíveis, há a in-pretensão
psicopata de guardar o não palpável. É a vontade de transformar todas as suas
amigas em irmãs, para morarem na mesma casa que você e não haver necessidade de
esperar até a hora da brincadeira, sempre breve e nunca suficiente. É o choro
descontrolado por ver a irmã de verdade voltar para sua cidade-casa do feriado
e não poder ir junto. É a depressão por ter que retornar à rotina monótona
depois do mês leviano de férias ensolaradas. E, finalmente, é a falta, expectativas
rasgadas e canções devolvidas que não mais poetizam momento nenhum.
Eu me apego a
pessoas, veja só. Eu, que me armo como antissocial e aprecio demasiadamente os raros
momentos de solitude, tenho inclinação natural e irremediável por empilhar, em cantos
abstratos, os frios na barriga e as crises de riso. E dentre todas essas
pessoas e sensações, eu te elegi, nem faz tanto tempo, a minha favorita. Cê
sabe, sou dessas.
Estou agora
virada pelo avesso, porque já fui avessa à ideia de me apegar, bem quando o
lema principal era manter distância para não gostar demais. Lutei profundamente
contra, até perceber a revoada dentro do peito. De novo.
Desculpa,
mas eu fico boba até com a ideia de você ter se apaixonado por mim, viu!
Tanta
conversa feminista e papo autoajuda não foram suficientes para me fazer esquivar por muito tempo. A
resistência falhou. Sempre falha! Mas é a tal coisa, ninguém recusa um feriado
prolongado porque a volta é motivo de desânimo e melancolia. Todos são gratos
pelos dias extraordinários de trégua com o estresse, embora, no último, o que
mais se ouça sejam pedidos chorosos para que qualquer milagre a estenda um
pouco mais.
Acho que essa lógica funciona bem na intimidade. Depois que me desapeguei dos temores inúteis, passei a me permitir também,
mesmo consciente das possibilidades de dor de cotovelo e coração partido. Em
alguma hora, você até esquece que existem dores de cotovelo e corações
partidos. E agora quem tem que partir é você.
Eu sei que o
meu drama é chato, que você vai, mas volta e blablablá... Mas, o que eu faço quando sentir
saudade? Porque andar algumas poucas quadras pra te encontrar é diferente de
atravessar o país e eu já doo por antecipação, sabe! Não quero causar a impressão
que não apoio, porque tô do seu lado, mesmo que um montão de distância seja acrescentado
a nossa fórmula. Só espero que a espera signifique uma certeza no final das
contas. Que esse buraco geográfico não seja o bastante para descarrilhar a
reciprocidade, entende!
E se tiver
que oferecer um incentivo, eu rogo: vai, querido! Que tanta afeição não é
suficiente pra te prender. Nem que eu provoque aqui a batalha do século contra o desejo
de que você fique. Trago em mim a obstinada faculdade do despojamento, de
engolir a mesquinhez do meu egoísmo, de subverter a inexperiência da minha alma,
de aceitar, ainda que com atraso, as tramas que são a mim impostas.
Mas, ao destino
aviso que vou continuar me apegando e acreditando que experimentar é mais sábio
que se arrepender por inanição, porque eu tenho esse apego infinito pelo lado
bom da vida. Você.
f.