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22 de out. de 2014

Para a tempestade

Um marinheiro me contou
Que a brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
-Chico Buarque de Hollanda



Chorei teu pranto como se fosse meu sem entender que tua chuva cessaria no instante em que me calhasse a decisão. Demorou essa coragem a chegar, mas surgiu no momento oportuno, como deveria ser. Meu barquinho não foi engolido por teu mar e sobrevivi a teu embalo furioso, apesar de quase sucumbir. Essas águas já não me convencem mais que eu não sou suficiente pra vida. Eu sou só e isso é poesia. Hoje posso brilhar até nos dias nublados, sem me sentir criança diante de tanta imensidão. Eu beijo o sal da tua tristeza para me curar dos naufrágios. Agora, eu danço com o vento, por cima do teu volume, fazendo das minhas dores a bússola para seguir adiante. É noite apenas na tua alma. Desalmada. Eu quero horizontes mais vibrantes, tempos mais excitantes e sonhos maiores que o medo. E sem acreditar na tua névoa eu chego até sem pedir. Eu sou o teu oposto, a tua calmaria. Eu sou a existência de nós duas, tola tempestade, que levou minha sanidade e levantou minha força.

E renasço.

f.

2 de nov. de 2013

Ecoou, ecoou



Nas veias, na alma, em cada fio de cabelo, nas pontas dos dedos e até pra fora da casa. Arrastou-se pelos cantos, subiu pelas paredes, engoliu o silêncio. Fez choro de agonia, uma canção de saudade, um pedido pra permanecer por inteiro. Mas não volta. Rotinas que estarão perdidas, risadas sem alcance que não ameaçarão mais nenhum arranhão de alegria. Pouco a pouco, lembranças sem face. Só a diferença. Um-menos-um. A dor palpita no peito. Pranto. Ausência. Severa. Humilhante. Devastadora. Escuro. O nada.




Espera. A dor tem pilha. Logo a pilha acaba. 

f.

25 de fev. de 2012

Meu adeus ao Gabriel



Quando eu conheci o Gabriel, ele estava em outra e eu também. Mas éramos colegas de classe, então passamos a nos ver todos os dias. O Gabriel sempre chamou a atenção com o seu estilo despojado e um humor inteligente. Ele parecia falar com todo mundo, menos comigo.

Um dia eu estava na biblioteca com umas amigas pesquisando para um trabalho em grupo e o Gabriel apareceu. Ele ficou com sua equipe numa mesa próxima, e ao final das atividades a gente já tinha se juntado pra bagunçar baixinho. O Gabriel sentou ao meu lado. E nós conversamos pela primeira vez. Isso não mudou muita coisa entre nós. Agora a gente se cruzava nos corredores e se cumprimentava. A essa altura eu já estava na do Gabriel, mesmo que ele ainda estivesse em outra.

Semanas depois, nos encontramos em uma festa. Falamos-nos brevemente e depois disso não o vi mais. No dia seguinte, me disseram que ele passou um bom tempo me procurando na festa. Meu estômago começou a soltar fogos de artifício.

Arquitetei um plano para me encontrar com o Gabriel sem que ele soubesse do meu interesse. O plano deu certo e fomos ao cinema. Foi lá então o nosso primeiro beijo. O beijo mais doce que eu já recebera. A partir daí, não nos desgrudamos mais.

No 12 de junho, o Gabriel me pediu em namoro. E eu soltei um não bem no meio da cara dele. O Gabriel queria namorar e eu não sabia o que queria. Ele pagou a conta e pediu um táxi para mim. Voltei para casa chorando e sozinha, mas pro Gabriel foi pior. No dia seguinte, conversamos sobre o ocorrido e concordamos em não rotular a nossa relação. Com o passar do tempo, eu percebi o quanto o Gabriel era especial. E logo desejei ser a sua namorada. O segundo pedido de namoro foi feito por mim.

O Gabriel me olhou sem entender e começou a rir da minha cara. Nós estávamos oficialmente namorando. Ele cuidava de mim e me fazia crer em todas as bobagens piegas dos namorados. Nós saíamos pelas ruas sem destino, trocando pedaços das nossas vidas e sendo felizes por estarmos juntos. No meu aniversário, o Gabriel me mandou flores e me levou para jantar. Ele conquistou o apreço do meu pai e virou o novo filho da minha mãe. E eu comecei a achar que não podia mais viver sem o Gabriel.

Nós vivemos sonhos por um bom tempo. Até que o Gabriel mudou de personalidade. Ele não quis conversar, nem me explicar o que estava acontecendo. E eu tive que ser paciente e dar espaço para ele. No final, o Gabriel não queria mesmo continuar comigo, e nos separamos. Entrei em estado letárgico. E quem costumava afirmar com convicção, no início, que não combinávamos, se surpreendeu ao saber que não éramos mais casal.

Passei pelas mais melosas canções de amor até chegar à página do Gabriel na internet. Ele dizia estar à procura de alguém para amar. Esse alguém não era eu. Em uma segunda visita, o Gabriel já havia encontrado. Então, tudo fez sentido. Ele me enganara, havia olhado nos meus olhos e mentido sobre suas razões.

O pior era ter que conviver com o Gabriel, por causa das aulas. Eu passei então a ser torturada diariamente. O Gabriel havia se tornado o meu melhor amigo, o meu melhor namorado, e agora nós agíamos como dois estranhos. O pior de ter o Gabriel foi ter que perdê-lo depois. E com todas as coisas que ele me fez, eu ainda gostava dele.

Passei um tempo amando e odiando o Gabriel simultaneamente. Aprendi um monte de coisa que ele nem imagina que me ensinou. O Gabriel me deixou vulnerável por um tempo, mas tudo que ele causou me fez forte. Eu descobri pessoas que se importam comigo de verdade. Aprendi a sorrir em plena guerra e a sair vitoriosa. Passei a exercitar a cautela para não mergulhar de cabeça no chão. E entendi mais sobre a dialética de liberdade e sobre a vida. O Gabriel foi um grande professor e quando percebi isso passei a lembrar dele, não por sua traição e desonestidade, mas por gostar de poesia e não sentir a necessidade de rir quando os outros riam.

Hoje o Gabriel me apareceu de dentro de uma gaveta, selado em uma caixa que eu nem tinha lembrança de ter mantido. Eu rasguei o Gabriel porque não fazia o mínimo sentido deixá-lo ali. Rasguei-o, não com mágoa, não com raiva, não por vingança. Rasguei porque ali não era mais lugar pro Gabriel ficar. Porque ele já cumprira o seu papel na minha vida e eu sei que virão outros como ele, para me instruir sobre tantas outras dores e alegrias. Fechei a gaveta e apaguei a luz como se nada tivesse acontecido. O Gabriel não voltaria mais.

f. 

13 de fev. de 2012

Sobre algumas partidas



A gente nunca imaginaria que aquela seria a última vez que nos veríamos. E como seria possível? Não é pra compreender. A vida acontece e ponto. Sua antagonista, também. Pode correr em ciclo, ou pode seguir em linha reta (você elege a opção que te convém acreditar). A verdade é que ninguém ta preparado, a gente nota ao chorar pelas pessoas que menos se espera. Simples demais. Triste demais.
A gente não viveu muitas coisas e não disse muitas coisas um ao outro. Mas eu me lembro de algumas micaretas, copas e réveillons, e sei que você levava o sorriso para onde quer que fosse e o dividia sem quaisquer restrições.
Outro dia o vizinho da frente também foi embora, por escolha própria, sabe. É claro que sabe. Mas, fico pensando, se tivesse como, você teria ficado? É que ta feio demais por aqui, não é? Todo mundo deixando todo mundo. Mas as pessoas ainda valem a pena no meio desse caos.
O que passa rápido de mais, de repente, ganha uma importância gritante, e a gente nota o quanto o tempo é insuficiente. Se a gente deixa de ser egoísta, fica mais fácil aceitar as decisões do destino. Só que sempre fica aquela pedrinha incomodando, afinal não haverá mais encontros ao acaso ou acenos de até breve. A partir de agora tudo vai estar um pouco diferente. Então não adianta mais olhar pro lado e esperar você aparecer na calçada, sempre vestido de alegria, certo?
É. Ainda tô assimilando esses últimos acontecimentos e juro que não vou te julgar por ter se afastado. É que ver as pessoas indo embora desse jeito, irreversível, é estranho e é assustador. Porque chegará um dia, eu vou acordar e perceber que já não recordo tão bem do som da sua voz ou das suas expressões. Mas ninguém tem noção da falta que o outro pode fazer. Até fazer. E faz.


f.

13 de nov. de 2011

Someone like you

Até que chegou o dia que, diante do espelho, fechei os olhos e fui capaz de sentir o suave toque das suas mãos me envolvendo, me passeando. O mesmo toque que me afastou os cabelos para respirar o aroma natural de uma alma tronca. Porque você sempre preferiu chegar até a base de tudo, o raso nunca o satisfez. E me perdi nessa fuga de estar sem, para te contemplar novamente, por mais uma vez sentir a confiança de caber no mundo de alguém. Beijando-me um beijo singelo, cheio de promessas e texturas descomprometidas, me transgrediu no impossível dos acontecimentos. Uma figura tão vívida nos devaneios de querer, quanto apagada do futuro que não vingará. E assim eu me virei a mim mesma - ou ao eu com quem sempre quis estar - e aspirei todas as lembranças embaralhadas do meu coração rechaçado, desequilibrado no veneno da dor. Nessa dor que me agarrei com unhas fincadas na decisão de nunca deixá-lo ir por inteiro, por mais que doesse. Mas o adeus nos seus olhos me espremeu o temor do que me recusava a executar: deixar para trás toda a razão que tive para seguir, que apesar de uma, era tanta. Mas seguir sem você não seria como voltar para trás? O que não entendia e que você insistia em me gritar com seu silêncio seria algo que me caberia aceitar nos segundos seguintes, quando cantou uma vez mais sobre a lógica egoísta de liberdade. Uma pequena ruína à minha espreita. Poderia eu matar minha sede apenas com lágrimas de abnegação ou sorver minha sobrevivência pela ausência que penetra meus poros? Chorei todo esse tempo essa ausência sempre presente em mim. O instante que você se aproximou, logo eu soube, se revelou o instante em que te perderia, um pouco mais do que vinha perdendo, e por definitivo. E só dessa vez, abrir os olhos não significou acordar. Mas era a intenção, realizar isso por um momento, e por um momento te trazer de volta pela última vez.

f.


I had hoped you'd see my face
And that you'd be reminded
That for me it isn't over

Adele

10 de nov. de 2011

Só mais uma aventura

Tropecei nessa vontade de ir embora. Na necessidade de abrir as portas de outros mundos.
Estava buscando ser diferente, ir um pouco além de mim. Ansiava experimentar novas atitudes, ir atrás de um eu que eu nunca fui.
Então fiz as malas e me despedi do espelho. E até que não foi difícil, eu estava realmente decidida.
Peguei o táxi, era cedo para tecer qualquer resultado, e o medo, também deixei para trás, ele que sempre fez tanta parte.
Mas não podia haver qualquer dúvida e mesmo que ela estivesse o tempo todo lá, eu me rendi.
E foi distinto em cores e compassos.
E não precisou de muitas palavras, nem pretextos.
Nada ensaiado, delineado, esperado.
Apenas o encontro e a entrega.
De repente perdi o fôlego.
A intensidade do toque, do sabor, da contemplação.
E então o desejo de ir adiante. De arrancar mais daquela experiência.
Embora tenha me machucado em algum momento, não consegui me arrepender.
Só não esperava me reencontrar tão rápido.
E isso me fez pensar...
Eu nunca estive verdadeiramente longe de mim.

f.

29 de mai. de 2010

Um Breve Conto Sobre a Sua Ausência


Parou para observar o cenário. Nulo, vazio. Havia andado por horas, talvez quilômetros. Solto com o vento, seus pensamentos o levaram para qualquer lugar. Havia se perdido dentro daquela dor, e embora não fosse de seu feitio sentir medo, estava cheio dele, dos mais profundos, dos mais covardes. Estava só. Por dentro e por fora. Tanto se entregara àquelas sensações, e a cada lembrança vivida, que agora não sabia como limpar a tatuagem em seu corpo, mais que isso, em sua alma. Era como uma tortura.O que ser sem você?, pensava, já que era tudo com ela. E seu dia nublado passou a contrastar com o dia ensolarado dos outros. E daquele olhar taciturno saíram lágrimas que gritavam desespero e inconformismo. Mais uma vez quis buscar as respostas. Mas o céu continuava azul, as pessoas ainda seguiam apressadas e automáticas as suas rotinas e o trânsito ainda era barulhento. E milhares de outros acontecimentos que seu cérebro simplesmente ignorava se sucediam naqueles segundos. E ninguém parecia se importar com o que estava acontecendo. Por que não se rendiam a sua tristeza? E por que deveriam? Apesar de parecer alcançar todos os limites geográficos, aquela dor era só dele. Mesmo assim, achava que o mundo inteiro merecia conhecer a sua história. Deus, como amara aquela mulher! As suas loucuras, sua sabedoria, sua respiração, seus traços doces e simples, seu sorriso que significava o ocaso de toda e qualquer chateação. Em troca, os seus melhores sorrisos, ele guardava para ela. Admirava a sua força e por ela ser a sua o medo lhe era obsoleto. Lembrou-se de certa conversa, quando uma vez tiveram que se separar. Uma frase que ela declarou e jamais foi capaz de esquecer: É quando você não está que eu te amo mais. De alguma forma, isso fazia todo o sentido. Ainda bem que ela existia, mas isso não era suficiente. Não! Ainda bem que ela existia e que fora feita para ele. Sabia pelas horas em que seus olhares se tocavam, na forma como suas mãos eram hábeis em se expressar, quando seus corpos pulsavam o mesmo ritmo e seus pensamentos se confundiam. Agora seu coração ferido tentava silenciar todos aqueles pedaços de extrema felicidade que insistiam em sobreviver, porque agora eles pertenciam ao passado e não eram mais dele. Um raro momento quando a felicidade envia o sofrimento ou quando a pessoa se perde de vez dela. Por muitas vezes, como um ritual quase diário, se encontraria andando por aí sem rumo, tentando descobrir os motivos pelos quais as pessoas ainda sorriam e se perguntando a quem daria os seus melhores. E olhava para o nada, lembrando daquelas palavras proferidas numa última conversa por telefone, sentindo-as à flor da pele: É quando você não está que eu te amo mais. Duraria um tempo para entender o propósito de tudo aquilo.




- E o que fazer ao fim do dia?
- Recomeçar!

f.

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