1 de jun. de 2014

Depois, a calmaria

Eu podia estar agora sem você
Mas eu não quero
-Marisa Monte


Não entendo porque quando penso em você todos os seus gestos me aparecem em câmera lenta com cortes explícitos de melhor companhia da terra. Mas faço questão de dar esse mergulho para dentro de seus olhos quase invadidos em um sorriso incoerente de rapaz tímido, porém valente. Eu rebobino a cena mil vezes e fico lá estática, esperando seu apertinho na minha bochecha, como numa doce tentativa de me despertar. Só que estou bem acordada, e ainda mais, abismada, por perceber tão tarde que você é a maior certeza que quis pra minha vida. Então, já não acho de mal admitir que minha cegueira seja uma das maiores da galáxia. Se não fosse pela sua coragem, será que eu ainda estaria esperando amor em outras direções? Até para aprender o inconfundível eu levo um tempo danado de longo. Ainda estou tentando domar tanta tendência a hiperbolizar os nãos e a ser possessiva além do extremo, mesmo que seja quase impraticável aniquilar o fato de que depois de estar com você o que eu mais quero sempre é estar com você. É engraçado isso! Ainda que ao seu lado, eu sinto a maior saudade do mundo. E talvez não seja preciso fazer algum esforço por compreensão. Você destrói minhas manias para se fazer vício de fim de tarde, manhã chuvosa e noite clara de verão. Não... na verdade, você é vício de todas as horas e estações e eras juntas, sem intervalos. E depois de me sentir tão pequena sem você, eu acho que não existe mais e ainda por um tempo aquela impressão de infalibilidade ou sentimento de arrogância. Disseram-me, sim, que eu poderia me reconstruir e viver apenas por mim e embora eu aquiescesse à veracidade dessas palavras, apenas não queria me ater à ideia clichê, e conveniente, de que o que é nosso volta. Não, não e não! Deixa, rapaz, eu ser teimosa e chata assim por mais um tempo, porque eu aspiro é todo o tempo pra nós dois. Um agora sem hiatos, sem barreiras, sem justificativas para viver de mentira até a dor cansar. Tô voltando a confiar. Eu quero poder ceder mais e julgar menos; entregar mais e esquecer consequências reversíveis. Quero fazer planos para daqui dez anos e ver a gente acertando e acontecendo sem improbabilidades. Não faz mal se você bravejar o “menina!” quando ficar impaciente, se a gente pode esquecer as pequenices e seguir fazendo piada do que não merece importância. Vou continuar nessa de pedir para os ponteiros atrasarem as despedidas até que elas desistam. Quero provar pra todo mundo que a gente se gosta tanto, tanto, tanto que até o fim se esqueceu de acabar pra virar começo de novo.

f.

13 de mai. de 2014

Ainda tão sua

Se não sabe, se afaste de mim.
Se ainda cabe, me abrace enfim.
-Nando Reis


Você costumava ter um olhar tão repleto de brilho que eu conseguia ver, até mesmo a metros de distância, que era eu quem provocava essas fagulhas, que sempre me lembravam das estrelas em noite de céu sem nuvem. De alguma forma, eu era importante pra você e esse olhar era que dizia sem nem precisar de sujeito e predicado. Sem nem precisar ligar o alarme ou por anúncio na tv. Era simples e ponto final. Tinha vontade e tinha verdade. E tinha também um sorriso instantâneo que era todo e só pra mim. Você costumava ter um amor... quase que incondicional pra pouco tempo de vivência. Eu fui deixando os medos se perderem no caminho e segui com a confiança que você me emprestava vezenquando a cada ocasião que perdoava os meus tropeços sem pestanejar. Eu fui me acomodando ao seu abraço e me fazendo completa a cada ameaça de beijo. Eu fui, fui feliz distraidamente, pela naturalidade do nosso sentimento e, mais ainda, pela intensidade do que a gente queria viver pela frente. Fui te fazendo de base pra vida toda até perceber que junto com os medos alguma coisa boa também se perdeu. Sobrou esse monte de insegurança e desespero que transbordam em cada maldita crise de afastamento. E acabei me dando conta que depois de todas as coisas boas e ruins, você nunca revelou seu atual estado de espírito. Daí, já nem sei se você me coloca nos seus planos de futuro porque é assim que realmente imagina ou se é porque eu estou na sua frente e, no fundo, não quer me ver chorar. Há quanto tempo você não liga só pra dizer que tá com saudade? Aliás, você chega a sentir saudade alguma hora por dia? Não sei se tenho muito mais tempo para essa brincadeira besta de mostrar ao outro que pode ficar sem ligar dois ou três dias sem nem sentir falta de nada. Eu sinto. Não tenho mais tempo para ser colocada na lista de espera. E me perdoe o excesso, se é assim que pensa. É que a última coisa que eu queria era ter que enfrentar o mundo sem a sua força. A última coisa que eu quero é ter que me desacostumar de você. Aí talvez eu não queira nem sobreviver.

f.

2 de nov. de 2013

Ecoou, ecoou



Nas veias, na alma, em cada fio de cabelo, nas pontas dos dedos e até pra fora da casa. Arrastou-se pelos cantos, subiu pelas paredes, engoliu o silêncio. Fez choro de agonia, uma canção de saudade, um pedido pra permanecer por inteiro. Mas não volta. Rotinas que estarão perdidas, risadas sem alcance que não ameaçarão mais nenhum arranhão de alegria. Pouco a pouco, lembranças sem face. Só a diferença. Um-menos-um. A dor palpita no peito. Pranto. Ausência. Severa. Humilhante. Devastadora. Escuro. O nada.




Espera. A dor tem pilha. Logo a pilha acaba. 

f.

11 de jul. de 2013

Que eu te amo


Acabei de desligar o telefone, arrependida de minha boca ter calado o óbvio. É que eu ainda não aprendi a censurar o meu orgulho quando ele brinca de imperar a minha sensibilidade. Você deveria saber que eu fui criada como filha única, mesmo não sendo, e esse descuido foi suficiente para refletir na forma como eu gosto de ser tratada. Eu bem sei que a sua alma livre não se prende a certos padrões de posse, mas, às vezes, essa tentativa de monopólio é a única coisa que me resta para me fazer sentir segura quando você insiste em permanecer longe. Deixa isso para o tempo. Se eu pudesse, pedia para ele nem passar por nós, ou pelo menos pra ele passar longe e desatento pra vida passar a ser suficiente. Igual a quando a gente ta junto e tudo, tudo, tudo tem cheiro e cor de infinito. Mas parece que a garganta engole o discurso e o inconsciente mina a lucidez. Desculpa se eu não consigo falar das coisas boas. Eu me ponho para fora é nesses estados tolos de dores eloquentes e desnecessárias. É que eu me armo com palavras idôneas, outras dissimuladas, para me expor da forma mais dilacerante possível. E torço para você não ver, para você não ler esses pensamentos desmesurados e desconcertantes. Para você não saber que a minha loucura é maior que o disfarce que me veste como normal aos olhos dos outros e até para você, que depois de tantos transtornos causados por mim, permanece convicto na ideia de dividir a casa quadrada comigo. Agora diz, como fazer pra não surtar quando os planos não saem como a gente imagina? Eu sou drástica, sou trágica, é verdade. Mas o que você não entende é que o que eu já perdi nessa vida me deixou a sensação de que se eu tiver de passar por tudo de novo, talvez eu não sobreviva. E eu preciso viver enquanto você estiver ao meu lado. Então agora você já deve imaginar qual é o meu medo, não? É o que estou sentindo agora pela minha boca ter calado o óbvio.

f.

8 de mar. de 2013

Prefiro o imperfeito



Usar sua apatia para me provocar, eu te garanto, meu bem, é tolo e é detestável. Apontar constantemente tudo que não gosto em mim, mesmo afirmando o quanto adora cada falha, soa, no mínimo, impensado - é que eu já convivo de mais com cada uma. E negligenciar cada pequena promessa rotineira por motivos menores, querido, parece tão vil, e insensato, e decepcionante... Mas sua falta de sensibilidade não me tenta arrependimentos ou recuos. Seu despreparo para relacionamentos não me desvia a percepção que você já me ensina muito. Ensina porque não é só idade ou experiência que fazem o cara maduro. Às vezes você só conta com intuição e vontade de acertar e se acertar. Só que deixar as coisas sempre perfeitas só funciona no comecinho, sabe, quando a gente acha que tudo é fábula porque encontrou a pessoa da vida. Depois o faz de conta se dissolve na rotina. Depois, fica mais raro acreditar em faz de conta. E cada vez mais difícil abraçar os contrastes, e tocar as certezas. E com você, meu bem, eu tenho aprendido que o conto-de-fadas-nosso-de-cada-dia está nessa imperfeição, nesse jeito principiante de experimentar o universo. Porque é uma delícia encontrar o final feliz depois de um desentendimento bobo, e a gente pode colecionar muitos, né, finais felizes, todos os dias?! E você está certíssimo quando pede para eu não te comparar a ninguém, você é sempre um pouco mais do que eu espero e isso, às vezes, até me faz sentir banal, porque eu queria mesmo gostar de pirar nos shows com você, e ser amiga dos seus amigos, e não me importar tanto com demonstrações públicas de afeto, e deixar você orgulhoso de mim e de nós. Enquanto eu faço esforço para não me sentir tão dependente, eu chego à conclusão que não há como voltar a ser quem se era, mas por você, eu não preciso abandonar minhas neuroses e outras paranóias de infância. Você consegue aceitar meu lado sombrio e isso já é um incentivo. Mesmo nos estranhando por alguns segundos ao dia, a gente ainda se enxerga como espelho do outro e somos, de fato, esses dois orgulhosos-donos-da-razão-que-combinam-até-nos-defeitos. Isso é tão realidade que me sinto na obrigação de agradecer todas as manhãs pelo encanto não acabar à meia noite. E, caso não sejamos felizes para sempre, amor, podemos ser felizes enquanto der. Sempre.

f.

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