Nobody said
it was easy
No one ever
said it would be this hard
Oh take me
back to the start
-Coldplay
Eu sei que
você sempre foi insegura e lenta e idealista. Que se deixou manipular e usar
algumas vezes e, noutras, nem sequer observou o que estava acontecendo. Criou malícia
para sobreviver aos dessabores e foi desacreditando da bondade. Eu sei que você
emprestou e alguns não te devolveram. Que apostou, mas apostou em enganos. Eu
vi você entregar a confiança, o coração e a alma. Você contou os dias para o
seus aniversários e calculou as horas para o próximo encontro. Quis ser
publicitária, advogada, atriz queridinha de Hollywood e até testadora de videogames. Mudou de filme favorito
algumas vezes e leu menos livros do que gostaria.
Você nunca
teve um amor de verão e em suas orações já pediu por uma história pela qual
valesse a pena ter existido. Você é cheia de ideias que nunca coloca em
prática. Tem medo de se expor e ser criticada. Costuma soltar sinceridades que,
de vez em quando, não são bem recebidas. Mas também já mentiu, já traiu, já
iludiu, já omitiu. Eu sei que o peso do mundo lhe quebrou por mais de uma
oportunidade e você achou que jamais se recuperaria, mas eu vi você juntar cada
estilhaço e se fortalecer com a experiência do dano.
Você
conheceu e desconheceu pessoas. Guardou saudades no fundo da gaveta e depois
esqueceu. Brincou de ser gente grande até ter que levar o assunto a sério. Você
acredita em aventuras, mas parece que nunca as vive. Sente que está parada, mas
não faz ideia de como sair do lugar. É do tipo que luta pelas pessoas mais do
que pelos sonhos e se pergunta a todo o momento se está fazendo errado. Você já
defendeu uma visão mais otimista da vida, mas ainda faz questão de sustentar
esperanças até o último milésimo. Alguns hábitos nunca mudam.
Eu sei que
você não lembra direito de quem era antes da faculdade, da morte do pai, do
primeiro beijo ou do menino que poderia ter sido o homem da sua vida, se ele
quisesse. Mas ele não quis. Você sabe que poderia ter chegado mais longe e
sente medo do que pode incidir, ou não, se não mudar a estratégia logo.
Talvez, se
você conseguisse olhar para frente sem se sabotar... Se houvessem meios de dar
o primeiro passo sem esperar por ninguém ou por algum milagre, você descobrisse
a coragem que ainda reside por dentro. Que este ainda não é o fim da linha. Que
os quase trinta não lhe fazem velha de mais para realizar.
Dá pra ser
forte sozinha, moça. Dá pra amar sozinha, a si mesma, e ser feliz pelo resto da
vida. Buscar isso no outro é dar crédito demais a um compromisso que é
inerente a cada um consigo mesmo. Você anda desequilibrada, moça. Precisa de
algo além do espelho para se enxergar. Tente meditação, acupuntura,
psicoterapia, homeopatia, dança, baralho. Procure o que lhe faz mal e jogue no lixo. Vá atrás da pessoa certa, vá atrás de você. Não se abandone, não. Não desista,
não.
Você acha que já viveu de mais, mas dá para começar do zero. Contanto que
você ofereça o máximo, que tente o quanto der, enquanto der, está fazendo sua
parte e é o que importa. Corra o seu caminho que o mundo ainda é bonito, moça. E ainda existe futuro. Ainda existem sonhos. Ainda
existe amor pra você.
f.







