6 de jun. de 2012

Sinto, logo escrevo



Não há segredo, teoria, fórmula ou equação. É uma expressão, uma vontade, um ato. Em palavras despisto minha loucura e esboço novos sonhos. Encontro uma parte de mim que só se mostra no papel; expulso, em doses, sentimentos que só se moldam às linhas retas e tortas de qualquer superfície que convenha ao propósito de experimentar e compartilhar vida. Arranjo letras em simetrias nem sempre coerentes e elas me movem a rumos distantes para provarem que eu tenho de passar por tudo isso. Eu conto partidas, conto saudades, conto amores e conto encontros. É um prazer desinteressado de quem nas entrelinhas revela esconderijos e dissimula o óbvio. Escrevo para descobrir modos de me resolver sem abreviar minhas chances. Alargo o mundo em milhares de idéias e deixo registrado em tinta todas as histórias que cruzam a minha própria. São escolhas que precisam ser escritas, não ditas.

f.

"Se a  tua dor te aflige, faz dela um poema".- Eça de Queiroz

1 de jun. de 2012

Eu espero


Eu ia dizer que te amei muito, aí lembrei que o verbo no pretérito é somente a mentira na qual eu me forço a acreditar. Hoje, a gente só divide a distância, mas já houve época em que o céu não cobria tanta afeição. Queria ter notado depressa quando o recíproco virou platônico, assim evitaria uma porção de pedidos jogados ao alto para você me querer um pouco além de mãos dadas e beijo na testa. 
Presto atenção em qualquer carro que passe pra ver se você está dentro, parece que ainda espero por uma carona no banco da frente. Não tem jeito, esperar é só o que me resta. Você não imagina o quanto esta cidade é triste. Ela não tem você, assim como eu, assim como nuvens baixas; aprendemos a chorar todos os dias. 
Aqui só existe uma ausência cheia de perfume seu. Falta a solidez para proteger meus delírios, a inclinação pra transformar tudo em mágica. Já peguei o telefone incontáveis vezes no impulso de te perguntar se você ainda topa, se ainda está disposto a me acompanhar naquela fantasia louca de querer ir à guerra ser correspondente, mesmo que meus pés estejam bem fincados nessas ruas calmas e a única guerra que amargo venha de dentro de mim. 
Pensei, então, em voltar aí pra te narrar a historinha da menina que se apaixona pelo melhor amigo e foge porque tem medo da rejeição, mas sou vencida por esse medo da mesma forma que sempre te escrevo essas cartas e as guardo dentro do peito. Tanta gente amando mais, se doando mais, e fazer parte da estatística não é opção. 
Não podia suportar outro minuto te ouvindo falar sobre a garota por quem você atravessaria o país para encontrar. Era tão difícil assim olhar pro lado e perceber que você não precisava nem dar meio passo pra achar alguém que cruzaria googols de terras por você? Não acho certo ter tanta vergonha de sentir, é tão insano, um amor tão bonito não devia precisar de disfarce, mas não tenho certeza que se eu disser você vai querer também. 
Prefiro não pensar que seu futuro não combina comigo. Renunciei aos milkshakes, ao banco da praça e ao seu abraço quente de apenas amigo; afastei-me para ver se você tem vontade de juntar a gente com algo mais forte que cola Super Bonder e nó de marinheiro. Preciso da sua vontade de ficar comigo. Do contrário, vou continuar acordando todos os dias morrendo de falta sua, tentando manter o sentido nessa espera e confiando, sei lá até quando, que o destino irá atrair o tempo certo pra nós dois, porque eu não sei dizer adeus.

f.

3 de mai. de 2012

A você que escolheu ser mais um


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Eu poderia te jogar na cara todas as lágrimas que juntei em baldes só para medir o tamanho da sua indiferença. Eu poderia fazer uma exposição detalhada de todos os dramas montados para denunciar os tipos de vilão que você interpretou. Eu queria te arrastar até a cena dos crimes que você cometeu só para te mostrar quantas esperanças você matou em mim. E eu poderia me tatuar com uma amargura infindável para não esquecer o meu ódio e toda a mágoa que tomou o seu lugar.
Você usou uma lábia pronta para amortecer minha insegurança e conquistar territórios. Fantasiou-se com romantismo e me fez pensar que era o homem perfeito para qualquer mulher. Uma amarração frágil, uma carência mal entendida e lá estava eu sentindo tudo que não devia por você. Mas, você soltou minha mão no meio de um labirinto, e o que a gente tende a experimentar quando alguém nos abandona é o amor que fica não o que vai embora. A aspiração nessa hora é automaticamente esmagar os bons momentos com decepção e raiva.
Eu não fui exceção. Eu não ganhei o artigo definido antes da pessoa, da mulher, do sentimento. Tampouco reinei ao seu lado enquanto acreditava estar com a coroa na cabeça. Demorou até eu compreender toda sua sinceridade fingida e demorou até me por no meu devido lugar na lista de prioridades. Eis o porquê de te escrever essas linhas. Finalmente, posso ser franca sem a interferência de qualquer ressentimento que me reduza à mediocridade.
Admito que fui condescendente com as suas teorias sobre tudo,  escancarei portas, janelas e portões, eu deixei, eu quis, eu fui cúmplice e sem o seu incentivo eu não teria chegado tão longe. É por isso que me faço em palavras, preciso te dar o reconhecimento por ter me preparado para o mundo. Pessoas são feitas de marcas e você me cravou algumas que converti em meu benefício. Agora eu sei que cicatrizes são uma espécie de armadura que nos tornam menos relapsos. 
Obrigada por tantas vezes ter sido meu estímulo para levantar da cama e enfrentar meus pequenos monstros. Depois que o efeito passou, eu simplesmente deixei de ser menos para ser nada menos que o meu melhor. Mas você me ajudou a crescer, a andar sem muletas sentimentalistas, a rever parâmetros e priorizar urgências. Eu estou enxergando o mundo com outras lentes agora e o coração palpita livre dos restos ruins.
Não te culpo mais pelas minhas tragédias pessoais, infernos e melodramas. E isso me faz um bem sem precedentes. Deixar você ir foi como defenestrar um tanto de tralha imenso cujo prazo de validade havia expirado. Voltei a me deparar com tipos iguais ao seu e me orgulho de levar na bagagem a sua lição.  Antes que você questione, é de experiência que estou falando, garoto. Você me impulsionou a subir os degraus, pode se orgulhar! Você valeu a pena porque despertou em mim a necessidade de me fazer feliz acima de tudo.

f.

27 de abr. de 2012

Do tempo que a gente era



Estava dando uma geral na minha estante [coisa que não fazia há um bom tempo] e te encontrei lá na prateleira de DVDs. Entre filmes europeus e asiáticos e grandes diretores americanos me dei conta de que já não nos falamos há meses. Vê se pode? Meses! Logo nós que costumávamos nos falar diariamente. Daí eu tentei voltar aos fatos; se por descuido ou qualquer outra desculpa feita na hora a gente se afastou sem pestanejar. Não encontrei nada que valesse o período ausente, mas o tempo tem mesmo essa mania de correr enquanto se está distraído, não é!
Esquivei-me mil vezes de escrever esta carta sem a certeza de que ainda tenho o direito. Da última vez que eu tentei contato, meio apressada, você foi um tanto evasivo e seco e eu fiquei imaginando se não passou de uma resposta também apressada ou uma sugestão para eu não te incomodar mais. O que quer que esteja se passando, eu gostaria de entender os seus motivos e explicar qualquer coisa que você queira saber.
Eu sei que nem todos os meus textos foram sobre você, nem todas as poesias rimaram com o seu nome, mas você nunca deixou de ser importante. Você foi meu único amigo quando todos os outros sumiram e até aceitou minhas esquisitices, mesmo reclamando, você me aceitou.
Traz uma saudade histérica lembrar as horas sem fim de conversa fiada no meio da madrugada. Você me tirando do sério, do sono, da solidão. Você me fazendo rir. Você brigando comigo. Você cantando desafinado. Sua empolgação ao falar de filmes. Você me fazendo rir. Você me obrigando a ver vídeos do Youtube. Você falando sobre futebol [tédio]. Você me explicando como é a sua mulher ideal. Você me cantando. Você me fazendo rir, até esquecermos a lonjura, os problemas, o resto.
Eu tô é achando chato esse jeito de levar a vida sem ter pra quem contar os caprichos. Você também não sente falta de nada, nadinha, nadica de nada? Tirando a aposta que fizemos em nós mesmos, não sobra nem a amizade? Você simplesmente cansou? Embora seja óbvio que nenhum dos dois espere mais pelo outro, não cabe em você carinho e disposição para cultivar o que ficou em comum além do desejo? Eu realmente me recuso a crer na efemeridade dos nossos planos, porque me faz falta as suas expressões esdrúxulas e até sua mania estúpida de superioridade. O certo é que você sempre se preocupou comigo e sempre fez questão de dividir todos os seus dias.
Assumo parte da culpa, assumo também minha súbita e breve necessidade de me distrair em outros diálogos. Mas tô aqui sem máscara, sem meandros, sem a TPM que te assombrava de vez em quando, pra pedir pra você voltar pra minha vida, seja a conta-gotas ou como enxurrada. Que você volte e volte a disputar comigo quem tem o melhor gosto para filmes e séries e música e quem é o mais esperto dos dois. Tanto tempo sem as suas brincadeiras ácidas, sem seus comentários maldosos e eu nunca pensei que fosse querer ouvi-los outra vez. Você não combina com silêncio.
Só para constar, eu me formei, cortei o cabelo, me apaixonei, me desapaixonei, saí do Estado, pensei em fugir com o circo, mudei de idéia, tô fazendo pós agora e tô querendo notícias suas. Em nome dos velhos tempos, me conta ao menos se seu sorriso tem visitado seus lábios com frequencia, se os seus sonhos estão se realizando direitinho e se você parou de jogar tanto vídeo game. Aí eu paro, paro de te perturbar, de agir como intrusa quando o que você quer é apenas ficar quieto.  Só preciso saber que você tá levando, que tá sendo forte sem mim e que eu não careço mais desse coma induzido para não lembrar o quão longe você continua.

f.

25 de abr. de 2012

Quem sou eu?



De todas as dúvidas elementares não me alcança a proeza de me definir. Sou jovem de mais para alegar que já vi de tudo nessa vida. Volúvel de mais para querer me fixar em um só lugar. Mas antes de você eu tinha algumas certezas que agora desabaram. Será que mais uma vez fui ingênua a ponto de me deixar guiar pelas suas mãos inconseqüentes? Eu não quero abarcar suposições frívolas quando posso te largar em uma tomada de decisão. Mas entenda que o difícil se prende exatamente nesse ponto: sempre que resolvo desatar o laço entre a gente, eu me deparo com um nó cego. E não fui educada para ficar em cima do muro. No entanto, é exatamente assim que eu me sinto. Desliguei-me de alguns princípios, hábitos e amigos para te fazer o centro do mundo. Sufoquei minha consciência, minha intuição em troca de me permitir ser um algo a mais na sua rotina. Hoje, não me reconheço nos meus próprios traços. Não me acho, não me distingo. Sou uma crise de identidade que perambula entre uma dimensão e outra sem encontrar o caminho de volta, mas querendo, e tentando. Estou cheia de sentimentos intempestivos, esperanças moribundas e faço meus passos sem regra nenhuma. Meu sistema está quebrado e de longe percebo que não dá para continuar assimilando as mesmas razões como se ainda fossem minhas. Me perdi e me perco cada vez mais em um roteiro alheio; estacionada numa história de improviso, rodeio vezes sem fim quem sou, quem me tornei. E o que me mata é que antes eu tinha algumas suspeitas, hoje não me sobram nem cinzas.

f.

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