Me disseram que escrever uma carta para alguém ou alguma experiência que não lhe fez bem daria grandes chances de libertar sentimentos que não deveriam estar guardados.
Eu quis começar pela pessoa que eu não quero mais ser, aquela que tem medo da vida, que não recebeu estímulos para se amar, que se vê perdida quando não lhe apontam a direção, que se julga menos do que é, que é catastrófica...
Passei alguns minutos olhando para a folha de papel em branco até perceber que eu não queria de fato me despedir. Fazer isso seria como abandonar a pessoa que estou lutando para me tornar, afinal, a minha história faz parte de mim e fugir do que eu sou hoje não resolve nenhum dos meus problemas.
Foi na dor que aprendi a me reconhecer.
Foi na dúvida que descobri que sou capaz de criar as minhas próprias respostas.
E foi na falha que encontrei o rastro mais honesto de quem eu sou.
Então, não. Essa não é uma carta de adeus.
É uma carta de acolhimento.
Pra mim.
Pra essa versão imperfeita, mas inteira.
Pra quem ainda chora por coisas pequenas, mas continua.
Pra quem ainda sente medo, mas não deixa de tentar.
Pra quem tropeça e, mesmo assim, volta pro caminho com os joelhos ralados e o peito aberto.
Eu não vou mais pedir desculpas por ser frágil.
Nem vou me envergonhar por não saber o que fazer.
A partir de hoje, me dou a mão.
E sigo.
Com tudo que fui.
Com tudo que doeu.
Com tudo que, supreendentemente, ainda pulsa em mim como vontade de viver.





