10 de fev. de 2012

Supera


Ai, menina, você está assim há tempo demais. Já é hora de variar, ordenar aquela faxina e se livrar de tudo o que não presta. Você sabe que não vai fazer nada sozinha. Levanta daí e toma uma iniciativa. Escolhe a vida, menina! Enquanto ela ainda torce por você. Usa essa tua coragem recolhida, essa força mofada. Procrastinar as razões não vai te levar a nenhum lugar. Experimenta se desfazer dessa dor, você não precisa mais disso. Esvazia do armário todos esses sentimentos pobres, são roupas velhas que você não vai mais usar. Pratica o desapego que o contrário disso enlouquece. Abnega qualquer culpa, supera a amargura. Destruição também é mudança. E olha pra frente, menina. É pra lá que a vida te chama. E é pra lá que você tem de ir.

f.

9 de fev. de 2012

Uma fé infinita...

Isso que se esvai, que não acontece, que brinca de se esconder, que se confunde, que se desperdiça, que não se entende, que não se vê, que não se acha, que se faz de difícil, que dói na gente, que faz joguinhos, que mente, que não olha nos olhos, que se cala, que se fecha, que aprisiona, que não anda junto, que muda de idéia, que joga na cara, que não se compromete, que conta vantagem, que não sente a falta, que não perdoa, que não enobrece, não pode ser amor, Meu Deus. Não é!

f.

Ânsia


"E quero brincar de esconde-esconde e dar minhas roupas para você e dizer que eu gosto dos seus sapatos e sentar nos degraus enquanto você toma banho e massagear seu pescoço e beijar seus pés e segurar a sua mão e sair para jantar e não me importar quando você comer minha comida e encontrar você no Rudy e falar sobre o dia e digitar suas cartas e carregar suas caixas e rir da sua paranóia e te dar fitas que você não vai ouvir e assistir a belos filmes e assistir a filmes horríveis e reclamar do rádio e tirar fotos de você quando você estiver dormindo e levantar para te levar o café e pãezinhos e geléia e ir ao Florent e tomar café à meia-noite e deixar você roubar meus cigarros e nunca achar os fósforos e contar pra você sobre o programa de TV que eu vi na noite passada e te levar ao oculista e não rir das suas piadas e querer você de manhã mas deixar você dormir mais um pouco e beijar suas costas e acariciar sua pele e dizer quanto eu amo seu cabelo seus olhos seus lábios seu pescoço seus peitos sua bunda sua

e sentar nos degraus e fumar até seu vizinho chegar em casa e sentar nos degraus e fumar até você chegar em casa e me preocupar quando você estiver atrasada e me surpreender quando você chegar mais cedo e te dar girassóis e ir à sua festa e dançar até não poder mais e me desculpar quando eu estiver errado e ficar feliz quando você me perdoar e olhar suas fotos e querer ter te conhecido desde que você nasceu e ouvir sua voz no meu ouvido e sentir sua pele na minha pele e ficar assustado quando você estiver zangada e um de seus olhos ficar vermelho e o outro azul e seu cabelo cair para a esquerda e seu rosto parecer oriental e dizer para você que você é linda e te abraçar quando você estiver ansiosa e segurar você quando você se machucar e querer você toda vez que eu te cheirar e te ofender quando te tocar e choramingar quando estiver do seu lado e choramingar quando não estiver e babar nos seus seios e cobrir você de noite e sentir frio quando você tirar meu cobertor e calor quando você não tirar e me derreter quando você sorrir e me acabar por completo quando você gargalhar e não entender por que você acha que estou te rejeitando quando eu não estou te rejeitando e pensar como você pôde achar que alguma vez te rejeitei e pensar em quem você é e te aceitar de qualquer jeito e te falar sobre o garoto da floresta encantada que atravessou o oceano porque te amava e escrever poemas para você e pensar por que você não acredita em mim e sentir tão profundamente que eu não ache palavras pra expressar esse sentimento e querer te comprar um gatinho do qual eu teria ciúmes porque ele teria mais atenção do que eu e deixar você ficar na cama quando você tiver que ir e chorar como um bebê quando você finalmente for e me livrar das pontas e te comprar presentes que você não queira e levá-los de volta e pedir para você casar comigo e ouvir você dizer não mais uma vez mas continuar pedindo porque apesar de você achar que eu não estava falando sério eu sempre falei sério desde a primeira vez que te pedi em casamento e vagar pela cidade achando que ela está vazia sem você e querer o que você quer e achar que estou me perdendo mas saber que estou seguro quando estou com você e te contar o que eu tenho de pior e tentar te dar o que eu tenho de melhor porque você não merece nada menos do que isso e responder suas perguntas quando eu preferir não responder e dizer a você a verdade mesmo quando eu realmente não queira e tentar ser honesto porque eu sei que você prefere assim e achar que está tudo acabado mas agüentar por mais dez minutos antes de você me jogar fora de sua vida e esquecer quem eu sou e tentar ficar mais próximo de você porque é lindo aprender a te conhecer e vale a pena o esforço e falar mal alemão com você e falar hebraico pior ainda e fazer amor com você às três da manhã e de alguma forma de alguma forma de alguma forma expressar um pouco deste esmagador embaraçoso interminável excessivo insuportável incondicional envolvente enriquecedor-de-coração ampliador-de-mente progressivo infindável amor que eu sinto por você."

[Trecho da peça "Crave",  de 1998]
Sarah Kane

2 de jan. de 2012

Doce-amargo


Logo você vai notar as palavras mornas, a mão solta e o corpo alheio. E mais depressa ainda vai lembrar-se dos pequenos desatinos e dos ternos segredos confessados dentro do quarto que agora permanece de portas e janelas escancaradas e interior vazio. E vai perceber também o coração inóspito, a voz soturna e a pele arrefecida pelo distanciamento. E vai querer entender esse caminho tão contra-intuitivo que se projetou a sua frente e passou a ser o seu chão. Você vai trazer à tona
as músicas,
a meia luz,
os pés embaralhados,
os bilhetes,
os suspiros,
a saudade,
a urgência,
o calor,
as provocações,
as palavras bonitas,
o sossego,
a certeza,
 a felicidade.
Você vai cobrar respostas, carinhos e promessas. E vai estar confuso diante da omissão dessa garganta convenientemente rouca quando indagada sobre o paradeiro daquele sentimento onde se costumava morar. É que ela quase não recorda esses suaves retratos envelhecidos, desbotados e só pode acusar a vida, o acaso, o tempo...
Sei lá.
Estou tão perdida quanto você.

f.

1 de jan. de 2012

Poemeto do não-amor


Por que não
Ir na contra-mão
Calar o refrão
Perder a razão
Trocar a direção
Tentar a exceção
Preferir a paixão

E afastar a solidão
?

f.

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